Suspense brasileiro 'O juízo' entra em cartaz nesta quinta-feira

Cinema

Suspense brasileiro ‘O juízo’ entra em cartaz nesta quinta-feira

Filme explora as relações de um núcleo familiar com um casarão do período escravocrata no Brasil
Foto: Dan Behr

Frederico Engel | Jornal do Comércio
Uma obra de suspense nacional, O juízo estreia nesta quinta-feira (5) nos cinemas. Roteirizado por Fernanda Torres, o filme, com direção de Andrucha Waddington, oferece um olhar naturalista de um caso familiar que passa por diversas gerações.

Na trama, Augusto, Tereza e Marinho se mudam para uma fazenda abandonada, herdada por Augusto de seu avô. O pai da família é vivido por Felipe Camargo, enquanto Carol Castro interpreta a mãe e Joaquim Torres Waddington, o filho. Não demora muito para que os problemas comecem, em uma história de traição e vingança de um escravo (Criolo) e sua filha (Kênia Bárbara).

O longa foi filmado 100% em locações, a maior parte em Barra do Piraí, no Rio de Janeiro, em casarão da época escravocrata. O local fica oito quilômetros afastado do centro e se torna um personagem da produção, conforme explica o diretor. “Tanto o interior da fazenda quanto a floresta ao redor dela têm uma personalidade que auxiliam a contar a história”, afirma Andrucha. Esse estilo de filmagem também possibilitou que todos estivessem focados no trabalho: “O sinal de celular não pegava, então não havia distrações”.

A localização também ajudou a passar o sentimento que o diretor queria. O clima nublado e chuvoso que ele buscava era natural da região, com a maior parte das filmagens oorrendo sob chuva. “Ficamos dois meses lá, sendo uma semana de ensaio e as outras sete de filmando as cenas”, relata.

O trabalho foi precedido por um período de preparação que teve início em 2012, com Fernanda Torres escrevendo o roteiro. As filmagens ocorreram somente no final de 2017. “Chegar agora (aos cinemas) foi a questão de financiamento, faltava dinheiro para finalizar. Certos projetos começam já com o orçamento, outros conseguem a totalidade da quantia necessária durante”, explica Andrucha.

Outro elemento de importância para a ambientação é a fotografia da obra. A primeira impressão passada pelos planos da floresta é de algo que por vezes lembra um documentário. “A semelhança é o fato de que nós buscamos usar de uma fotografia naturalista, da qual diversos documentários também fazem uso. Essa abordagem é uma forma de transmitir ao público uma sensação de realidade”, argumenta o diretor. Em cenas noturnas dentro do casarão, a luz de velas é a única fonte de iluminação usada para o trabalho. Elas foram desenvolvidas especificamente para o filme, tendo pavio duplo e cera em combustão.

Com um trio de protagonistas que reside em um local distante e envolto pela natureza, O juízo aparenta ter uma forte inspiração em A bruxa, elogiada produção de terror recente. Contudo, Andrucha pontua que, ainda que o longa do norte-americano Robert Eggers seja uma influência, ele não é a principal base. “Eu retiro (inspiração) de vários locais. A bruxa é ótimo e tem suas semelhanças com o filme, mas (O juízo) não é inspirado diretamente”, conta.

Outro ponto em comum dos dois longas está no uso do suspense. Obras brasileiras de gênero, observa o diretor, têm recebido mais espaço, ainda que este não seja o mesmo dado a produções norte-americanas, por exemplo. “Filmes de terror, suspense e outros gêneros dos Estados Unidos funcionam aqui no Brasil. Isso possibilita que possamos trabalhar com esses estilos, criar uma cultura de consumo nacional deste tipo. A tendência de alterar já está ocorrendo”, acredita o cineasta.

Talvez o único ponto que poderia ser melhorado no longa são as atuações: ainda que boas, em certos momentos mínimos, há um pequeno sentimento de artificialidade. Isso, porém, não se aplica a Fernanda Montenegro e Lima Duarte. Vindos do rádio, passando pelo teatro e televisão, o diretor descreve os veteranos como atores completos, classificando como uma “experiência de vida” trabalhar com eles: “O que eu quero é que as pessoas vão ao cinema assistir ao filme e esses ícones da dramaturgia nacional”.

O juízo é sombrio e com uma narrativa interessante, que entrega viradas até o final. Além disso, contam a seu favor os aspectos técnicos, que passam por fotografia, iluminação e som excelentes, e uma direção que posiciona o público ao lado dos protagonistas.

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