O que faz quem vive na periferia de Porto Alegre votar em Jair Bolsonaro – Porto Alegre 24 Horas
Connect with us

Política

O que faz quem vive na periferia de Porto Alegre votar em Jair Bolsonaro

Publicado há

em

Créditos da foto da notícia: Foto: Polícia Civil.





Por Fernanda Canofre / Sul21

“Quando eu vi uma reportagem na internet, eu achei muito bom, porque ele é muito família. Antes eu nem conhecia o tal de Bolsonaro”, conta Rudinei da Silva, 50 anos, quando começa a conversa sobre porque decidiu dar seu voto a Jair Bolsonaro (PSL), em outubro. “Tipo, na parte de armamento, não que me interesse arma, mas acho que todo cidadão brasileiro tem o direito de estar armado. Se o vagabundo está, né? Não sei se vai mudar, a gente vai tentar essa vez. É o último que eu vou tentar. Eu não ia votar mais. Ia votar em branco, nulo, ia fazer qualquer coisa”.

A conversa com Nei, como é conhecido, acontece na oficina mecânica da Travessa Vinte e Cinco de Julho, no coração do Morro da Cruz, em Porto Alegre. Aposentado da Marinha mercante, ele costuma passar os dias por ali mexendo em motos, como passatempo. Foi no local que ouviu falar sobre o deputado federal do Rio de Janeiro pela primeira vez, pelos jovens que estão sempre na oficina. “Mas não me chamava muito a atenção”, diz ele. “O que eles me disseram é que querem um Brasil melhor e acham que é por ali. [Bolsonaro] me passou isso. Ele quer melhorar escola, o que todos os políticos prometem, mas nele senti a firmeza e que aquilo vai ser real”.




Nei não é exceção entre as pessoas que vivem na periferia e que se identificam com Bolsonaro e seus discursos inflamados. Algumas contam que evitam revelar o voto de cara, para fugir de brigas com amigos e familiares, ou as conversas sobre o candidato ter dado declarações machistas, racistas, homofóbicas. Sempre transformadas em “mimimi da oposição” nas explicações posteriores do deputado, para quem o admira, as declarações também têm pouco peso diante de ideias ligadas à segurança e à educação.

O Morro da Cruz recebeu o nome pela cruz colocada no alto e por ser palco de uma tradicional procissão durante a Páscoa. A região é conhecida por nome próprio, ainda que seja parte do bairro São José. De acordo com dados do ObservaPOA, observatório do município de Porto Alegre, criado em 1959, o bairro tem hoje cerca de 30 mil habitantes – 42% deles recebem até dois salários mínimos.

O Morro também é objeto de pesquisa das antropólogas Rosana Pinheiro Machado e Lúcia Scalco, desde 2009. Com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) surfando numa maré de popularidade, desviando a “marolinha” da crise econômica mundial, elas escolheram a região para estudar consumo popular. Começaram “no auge do lulismo”, explica Rosana, na entrada do momento de incentivo ao consumo. E, sem planejar, chegaram ao momento atual, de crise de representatividade e abraço ao discurso revoltado.




“A gente sempre via que era uma inclusão que não era sustentável, que era da porta para dentro, como diz o próprio João Santana, não era da porta para fora. O preconceito continuava, a violência estrutural continuava. O título do nosso livro é ‘Da esperança ao ódio’, mas a gente diz que havia ódio na esperança, assim como há esperança nesse ódio. Era uma inclusão extremamente contraditória”, afirma Rosana.

O princípio ajuda a explicar, em parte, as razões de alguns eleitores que têm a intenção de votar em Jair Bolsonaro. Propostas como a militarização do ensino, a promessa de melhorar a segurança e a de armar todo mundo costumam ser as mais citadas entre as razões de quem se diz eleitor do deputado.

“Uma mulher falou: ‘O que o Bolsonaro quer, todo mundo quer. Eu quero andar à noite tranquila, com a minha família’. E eu também quero isso, só não assim. À bala. Mas quem vai discordar?”, lembra Lúcia. “[O apoio] é muito mais complexo. Um rapaz me disse algo, que fiquei sem saber como responder. Ele disse: meu avô mora em Águas Claras, em Viamão, foi assaltado oito vezes. As últimas com arma. Deram uma coronhada na cabeça do meu avô. Por que ele não tem direito a ter uma arma, se ele está vendo que estão entrando no portão dele, num sitiozinho? Se ele está vendo os cachorros latindo e ainda podem matar meu avô? O que eu vou dizer para essa criatura? Eu abomino [Bolsonaro], mas consigo entender que, nesse momento, ele diz que vai tentar fazer isso ou aquilo e as pessoas acreditam”.




Depois de estudarem por anos o fenômeno dos rolezinhos – onde viam mais uma tentativa dos jovens de serem incluídos no capitalismo, do que luta de classes – há 15 meses, as duas pesquisadoras passaram a ouvir pessoas que prometem votar em Bolsonaro. Conversando com jovens da mesma escola e mesma faixa etária que os “rolezeiros” tinham em 2014, elas encontraram em 2017 uma geração que curte Bolsonaro. Mesmo quem diz que não votaria nele, diz “admirar” e “respeitar” o parlamentar.

Para tentar entender um pouco desse fenômeno, batizado por Lúcia e Rosana de “bolsonarismo”, o Sul21foi ao Morro com elas para conversar com algumas pessoas que esperam ver Bolsonaro no Planalto a partir de 2019. Todos os ouvidos pela reportagem disseram conhecer e acompanhar o deputado há mais de dois anos. Ou seja, algo que começa muito antes do ano eleitoral. E que deve seguir depois dele, independente do resultado nas urnas.



A simpatia

Nei, o marinheiro aposentado que abriu a reportagem, conta que “até semana passada votaria de novo no Lula”. Nos últimos sete dias, porém, definiu de vez o voto em Bolsonaro.

“Eu gosto do Lula, mesmo que ele seja ladrão, eu gosto dele. Fez alguma coisa pelo Estado. O Lula roubou. Se tu conseguir me provar que um político não rouba, tu é um herói. Ele roubou, mas fez alguma coisa pra gente. Agora, só estão roubando, roubando e não fazem nada”, diz ele. “Mudei o voto porque eu vi que o caráter [do Bolsonaro] é muito melhor, ele consegue passar para a gente uma coisa boa, de família. Foi o que me interessou muito nele. Ele não gosta de gay. Daí dizem assim, ‘ah, mas o Bolsonaro não gosta de gay e mata gay’. Não. Ele não gosta daquele gay que está ali na esquina, dois homens se beijando. Eu não tenho nada contra, mas que vão se beijar em outro lugar”.

Nas conversas da oficina, quatro rapazes aparentando ter por volta de 20 anos, diziam nunca ter ouvido falar de Bolsonaro. Alguns diziam ter largado a escola. Algo recorrente no Morro, já que só há escolas de ensino fundamental ali. Quem quiser seguir estudando, tem que caminhar longe ou pagar transporte. Segundo as pesquisadoras, a via institucional, ou seja, a escola, cursos que frequentam, lugares de trabalho, é o principal meio para descobrir o parlamentar.




Há 27 anos na Câmara dos Deputados, com apenas dois projetos aprovados, Bolsonaro ficou conhecido nacionalmente por entrevistas polêmicas na televisão. Especialmente ao programa CQC, da Rede Bandeirantes, uma mistura de jornalismo e humorístico. Em uma delas, questionado pela cantora Preta Gil sobre o que faria se seu filho de apaixonasse por uma negra, ele respondeu que “não discutiria promiscuidades”, que “seus filhos foram muito bem educados e não viveram em um ambiente como, lamentavelmente, é [era o dela]”. Em 2015, o Supremo Tribunal Federal (STF) arquivou a denúncia contra o deputado por essas declarações, por entender que a imunidade parlamentar – quando ele fala como deputado – o protege civil e penalmente por opiniões, palavras e votos.

Nos últimos anos, as opiniões polêmicas também o transformaram em um fenômeno nas redes sociais. Local onde a maioria de seus simpatizantes se alimenta de informações sobre ele e suas ideias.




Trabalhando num Lava Jato, Carlos, que preferiu não dizer o sobrenome, conta que acompanha as pesquisas e a história de vida de Bolsonaro há bastante tempo, e que ele terá seu voto. “Pela história de vida dele. Ele é militar, pai de família, de direita. Eu sou de direita”. Pergunto o que significa “ser de direita” para ele. “Somos contra o PT, contra a Dilma, contra Lula sempre. Porque eles só roubaram, só roubam”. Apesar de não saber indicar o que exatamente está ruim nos serviços públicos do Morro, ele diz que, principalmente na saúde, “a situação é periclitante”. “No mínimo, ele vai acabar com essa roubalheira. E melhorar na questão da saúde, segurança e direitos civis, com a questão da liberação das armas”.

Com menos convicção, o mecânico Daniel Prado, 32 anos, diz que ainda está indeciso e esperando se aproximar das eleições para decidir seu voto. Mas simpatiza com Bolsonaro. O pai dele, porém, já se definiu a favor do deputado.

“Eu acredito que não vá mudar. Bolsonaro com tudo o que ele vem propondo, vai ser uma coisa completamente diferente. Pode até o povo se revoltar depois, porque vai mudar tudo”, diz Daniel. “Todos os outros que estiveram no cargo fizeram a mesma coisa. Todo mundo que vai pra lá quer fazer seu pé de meia. Cada um faz o meio de campo, ficou os quatro anos ali e deu. A gente vem votando no PT há um bom tempo já, mas com esses escândalos, a gente tem medo também. Muita coisa mudou com o Lula, muita coisa aconteceu, como o Bolsa Família, esses outros programas para os estudantes, que ajudaram bastante. Mesmo assim, a gente fica com um pé atrás”.




Assim como Nei, a fala de Daniel parece mais de decepção do que do ódio antipetista, presente nas eleições de 2014 e de volta nesta.

“O que me preocupa nessa história toda dele, que ele fala que vai mudar, mas ele não pode mudar sozinho. Essa é a parte que me deixa meio abalado. Ele vai depender de outros partidos, ele vai depender de outros deputados. Aí que eu não consigo entender como vai mudar, mas ainda voto nele”, avalia Nei.

O voto das mulheres

Rosana Pinheiro Machado lembra que os rolezinhos tinham “um aspecto masculino”. Para as meninas, sobrava o papel de vedetes no movimento. A maioria das mulheres ouvidas por ela e por Lúcia também não se sente exatamente parte da onda bolsonarista. Mas há muitas delas que sim. Como a dona de casa Débora Regina Farias de Oliveira, 34, proprietária com o marido de uma lan house no Morro.




A primeira vez que ouviu falar sobre Bolsonaro foi pesquisando candidatos, em 2014, atrás “de uma pessoa diferente”. A esperança era vê-lo como candidato ainda naquele ano. “E no fim, ele não conseguiu né?”, lembra Débora. A família, porém, seguiu acompanhando o trabalho do deputado do Rio de Janeiro nas redes. “A gente gosta muito das ideias e das propostas dele. Tipo, esse negócio, que está muito, o pessoal liberando maconha nas esquinas, em qualquer lugar, essa festa, esse fuzuê todo, né. Bandido, a gente não pode andar na rua. Tudo isso, parece que ele tem uma ideia já bem aflorada do que ele quer fazer. Isso que foi pegando mais a gente para votar nele”.

Apesar do Morro ser um lugar seguro, Débora reclama das “festas e drogas nas esquinas até tarde”. No ano passado, ela diz, o marido foi prejudicado em uma prova de concurso público porque não conseguiu dormir com o barulho do “funk alto, pessoal quebrando garrafas”. Para ele, ver Bolsonaro eleito seria uma garantia para “reagir às coisas que vê de errado”. “Hoje em dia, nem isso a gente pode”.




A violência, porém, é comum perto da Escola Estadual de Ensino Fundamental Oscar Tollens, onde os dois filhos dela, um de 12 e outro de 10 anos, estudam. Antes, as crianças frequentavam uma escola municipal, onde ela diz que “o ensino era muito fraco”. Agora, convivem com a falta constante de professores. O que faz com que Débora abra um sorriso de orelha a orelha quando fala de outra proposta de Bolsonaro. A militarização do ensino.

“Meu sonho de consumo! Porque é outra coisa ter uma escola regradinha, que tu faz só aquilo que é correto mesmo. Tem segurança de deixar teu filho lá dentro, é outra coisa. O respeito também. Um sonho que eu tinha era colocar os guris na escola militar”, diz ela. Ela nunca chegou a tentar colocá-los em alguma das que já existem em Porto Alegre, porque acha que eles não conseguiriam passar nas provas com o ensino que tiveram até aqui.

O filho de 12 anos, aliás, diz que não vê a hora de poder votar em Bolsonaro. Nas conversas em família, Débora e o marido já conseguiram convencer os pais e o irmão dela. Toda vez que alguém a confronta sobre gostar de Bolsonaro, ela diz que pergunta, calmamente, por que a pessoa não votaria nele e que explica porque ela vota. “Eles dizem que acham as ideias dele muito erradas, que ele é preconceituoso, machista, homofóbico. Gente, de onde? Pesquisa um pouco mais, em vez de estar só abrindo a boca pelo que vocês veem no Face. Assim como tem aqueles que não gostam, tem os que gostam”.




Quando se fala de esquerda no Morro, as pessoas traduzem para PT. Ela diz que reconhece os feitos dos governos do Partidos dos Trabalhadores na vida no Morro, mas que depois “eles pararam e não fizeram mais nada”. Ela também se sente incomodada por políticas sociais como o Bolsa Família e as cotas. Para ela, é como se a esquerda gostasse de “vitimar as pessoas”.

“Não gosto de [cotas], nada dessas coisas, Bolsa Família. Se não quer, não faça filhos. Todo mundo tem direito de ter, mas se tu tem, tem que arcar com as consequências. Embala”, defende. Morando em uma região pobre da cidade, pergunto se ela não viu o Bolsa Família ajudando famílias por ali. “Acho que ajudou a fazer mais filhos para ganhar mais Bolsa Família. Infelizmente, é isso que eu acho. Acho que eles poderiam ajudar de tal forma, quem não quer ter filho mais, poderia fazer uma cirurgiazinha, pra não ter mais filho, como meu marido já fez. Isso é uma ajuda. Quanto menos filho tu tiver, de repente, pode ganhar uma vaga numa escola particular, alguma coisa de incentivo para esse lado. Não ter mais filho e ganhar mais. Acho isso ridículo, ridículo. Tu vê as pessoas passando por aí, passam necessidade e tem uma penca de filhos. Para que isso? Para passar necessidade todo mundo, para virarem uns projetos de marginal? Comer de onde? Fazer o quê?”.




Para ela, Bolsonaro “é a única esperança”. Em 2014, com ele fora da disputa, ela estava se preparando para votar no ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), falecido durante um acidente de avião quando estava prestes a iniciar a campanha. O provável voto em Campos, que agora converte para Bolsonaro, aliás, é algo comum de se ouvir na região. A gente até pensava, se [Bolsonaro] não conseguir, a gente vota nesse”, lembra Débora. “Mas dessa vez vai, pelo amor de Deus”.

O voto jovem

Talvez o maior fenômeno dentro do bolsonarismo seja o voto jovem. De acordo com uma reportagem da BBC Brasil publicado no fim do ano passado, 60% dos eleitores de Bolsonaro têm entre 18 e 34 anos. Entre eles, as pautas identitárias não têm muita força. Rosana diz que alguns “até têm vergonha de falar isso”, rejeitam os rótulos normalmente aplicados ao candidato e não querem ser associados a machismo, racismo, homofobia.




“Como é uma geração bastante reflexiva, essa nova juventude, os meninos já estão questionando se vão votar ou não. Foi assim que começou [nossa pesquisa]”, explica ela. “O que a gente achava que seria uma virada [da geração seguinte aos rolezinhos] à esquerda, virou uma virada à direita. A gente desconstrói a ideia de virada, porque são valores à igreja, família, armas, pena de morte. São pautas que sempre estiveram presentes na sociedade brasileira”.

Os motivos do voto entre os jovens que vem ouvindo em 15 meses de grupos focais e visitas, diz a antropóloga, estão mais relacionados à violência urbana e a acreditarem que suas vidas estão piores do que de alguém que rouba ou trabalha para o tráfico.

“O principal motivo é a liberação das armas e uma ideia de que ele é novo, de que ele vai fazer algo novo. A principal coisa que vem à tona é a questão de um maior rigor penal, porque eles se sentem muito revoltados de estar estudando, estar perdendo amigos, não achar justo o esforço que eles fazem para ficar horas no transporte público e ganhar R$ 600. Eles têm uma interpretação que a vida deles está pior. Um menino me disse que a vida dele está pior do que a do primo que está preso”, conta ela.




“A política, principalmente do Morro, era a política da compra de votos. Mesmo quando não era, quando era indireta, sempre era um toma lá dá cá. Esse menino disse que a vida toda ele só via as pessoas serem pagas [pelo voto] e agora vota nele porque é a primeira vez que vê as pessoas terem paixão pela política. O que é impressionante. As pessoas têm uma relação emocional, de acreditar”, analisa Rosana.Difícil acreditar que alguém ache que estar preso no Brasil possa ser uma condição melhor que qualquer outra. Mas muito do voto de Bolsonaro parece orientado assim, por interpretações e sensações pessoais. A pesquisadora cita, por exemplo, um jovem ouvido no trabalho, que é motorista de aplicativo e leva no carro um adesivo de Bolsonaro.

Foi assim com Ícaro Silva dos Santos, 23, auxiliar administrativo. Icaro vive no bairro Santa Teresa, na zona sul de Porto Alegre, e era “rolezeiro” há alguns anos. Na época, ele diz não lembrar o que pensava sobre política, mas já tinha visto uma entrevista com Bolsonaro que chamou sua atenção.

“Foi a primeira vez que eu vi e já gostei, já me familiarizei. Como na entrevista ele estava falando da questão de segurança, foi a forma que ele tratou esse assunto, sem muita piedade na forma de falar sobre pessoas que fazem o mal. Bandidos, criminosos, assaltantes, que ele falou que, caso um dia fosse presidente, não teria pena. O que vem muito dos direitos humanos, que dá muita regalia para presidiário e bandido”, opina Ícaro.




Histórias de assaltos, ele conta, todo mundo a sua volta tem. Familiares, amigos, ele mesmo. O que ele acha que ajuda a atrair votos para o deputado. Ainda assim, também há muitos conhecidos que repudiam o voto nele. Com uma postagem sobre a participação de Bolsonaro, no programa Roda Viva, da TV Cultura, Ícaro se viu criticado nas redes sociais.

“É eu falar que sou eleitor do Bolsonaro, a pessoa já diz que sou racista, machista, nazista, eletricista. Tudo o que pode falar de ista as pessoas chamam. Muita gente até desfaz amizade, diz que não esperava isso, como se fosse um crime tu votar no Bolsonaro, sabe?”, conta ele. “Quem deixa de ser amigo por questão de política, na verdade, nunca foi amigo”.

O contraponto

Mas, Bolsonaro também não é unanimidade. O educador social Alberto Britto de Souza, que trabalha com escolinha criada em turno inverso, para atender as crianças do Morro, diz que sua primeira opção é Ciro Gomes (assim como Ícaro, aliás), mas que votaria em Lula se puder concorrer.




“Ele é minha primeira opção, pelo trabalho que ele desenvolveu. Roubar, acho que todo mundo que está no poder rouba ou faz o meio de campo por seu partido. O que ele fez pela grande população, negra e pobre, não vi nenhum outro presidente fazer. Assim como a Dilma. Os outros partidos sempre têm favorecido a burguesia. O pessoal da classe média e alta é sempre favorecido, o pessoal da comunidade fica em terceiro ou quarto plano”, explica Beto.

Ele diz que “não vê nenhuma proposta concreta por parte de Bolsonaro”. Retirar o Estatuto do Desarmamento e facilitar o porte de armas, por exemplo, ele diz que não vê como pode “ajudar ou adiantar com o problema da violência”. Embora a retórica de Bolsonaro dê a entender que ninguém pode comprar armas no país, não é bem assim. O armamento no Brasil é autorizado a maiores de 25 anos, sem histórico criminal e com comprovação de 10 horas de aulas de tiro. As regras de compra são ditadas pela Polícia Federal e pelo próprio Estatuto.

Beto se disse surpreso quando descobriu que há pessoas no Morro que votam em Bolsonaro. Sobre o argumento de que ele seria “novo” e poderia mudar as coisas, ele diz que o prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Júnior (PSDB), é a prova de que não é simples. Beto lembra que, durante a campanha, o então candidato aparecia ali “prometendo mundos e fundos”, “que iria mudar bastante coisa”. “E não vi ele melhorar nada”, lamenta.




“Se a gente entender um pouco sobre a insegurança que temos, isso vem da educação. A gente focar na educação é o caminho que eu vejo. Se as pessoas tiverem qualificação para o mercado de trabalho, mesmo sabendo que tem várias pessoas desempregadas e o mercado ser bem concorrido. Eu entendo que a educação é a solução para essa questão”, afirma Beto.

Dentro das famílias, também há muita divergência sobre o voto em Bolsonaro. Uma menina, entrevistada pelas pesquisadoras na época das ocupações dos estudantes secundaristas, em 2016, por exemplo, contou há pouco tempo que quase foi expulsa de casa por tentar contrapor os argumentos do candidato. Rosana afirma que Bolsonaro é “um produto da crise”.

“Isso tudo vem dessa revolta anti-sistema, que o Bolsonaro viu que poderia encarnar este personagem, principalmente depois do Donald Trump. Porque as pessoas estão descrentes de tudo, o sistema está falido em tudo. Você vê, nada funciona ali no Morro. Ele encarna um pouco essa coisa anti-establishment”, aponta. “Nesse momento de limbo, a figura dele acaba sendo muito importante e tem um eco em cada pessoa de maneira diferente”.




Olhar para quem vota em Bolsonaro como um espelho simples de suas declarações, porém, prejudica tentar entender porque o apelo dele cresce. Ou seja, ao se ater aos estereótipos de sempre – racista, machista, homofóbico – acaba-se isolando ainda mais as pessoas que estão frustradas e redirecionando isso para a candidatura dele.

“Essas pessoas que acham ele extremista gostam de vários pontos dele porque está respondendo a uma crise da segurança pública. As pessoas estão morrendo todos os dias por um assalto, por nada. Um menino, nosso informante, o amigo dele morreu porque não tinha dinheiro e levou um tiro nas costas. Ele responde a isso. As pessoas se apegam a um aspecto, por uma fala já saem dizendo racista, fascista, homofóbico e piora o debate. O trabalho que estamos fazendo no [Colégio] Murialdo, há 15 meses, é um trabalho de diálogo e de respeito, entre bolsonaristas e contra. Essas pessoas que têm um sistema de informação precário, uma vida precária, começam a receber coisas [sobre ele na internet] e chegam a esse nome sozinhas. Muitas vezes, a declaração de voto é isso. Só tem ele”, analisa ela.




Lúcia, que trabalha junto ao Morro, não só com pesquisa, mas com a Associação de Moradores e projetos de ONGs, há 16 anos, acha que o modelo do próprio Bolsa Família ajuda a explicar o esvaziamento das pautas sociais. Comparando com o Fome Zero, um dos primeiros programas de Lula, ela aponta que o Bolsa Família, ao contrário, é algo individual que depende da determinação de uma assistente social para saber quem deve receber.

“Quando era distribuição de alimentos, que as pessoas podem pensar que era assistencialista, a roda girava. Quem vai ganhar e quem não vai, como estocar o alimento, quem vai distribuir. O menino pegava o carrinho de mão e ganhava R$ 5 para levar o rancho para uma velhinha, existia uma política, o local era valorizado e tinha poder de decisão. Agora é uma política individualista, que não passa pelo social e não passa pelas lideranças. Isso esvaziou muito todo o movimento social”, avalia ela.

E tem o fator geracional. O entorno da Cruz, que dá nome ao Morro, por exemplo, virou território de meninos que se encontram sem rumo. Mais do que pela recessão e pela alta taxa de desemprego no país, eles são produto da ausência do Estado em políticas públicas.




“É super comum. A geração nem-nem. Nem trabalhando, nem estudando. Eles nem desejam, nem sonham com estudar, porque eles odeiam a escola. A escola não diz nada para eles, eles estão ali por medidas sócio-educativas, porque são obrigados, porque o Bolsa Família exige para a família receber. Mas não faz parte. Eles vivem naquele mundinho ali e falam ‘a gente vai para Porto Alegre’, como se fosse outro lugar longe. Eu conheci um menino que ia a pé para o Julinho, quase 8 km. Mas, puxa vida, isso é justo? Exigir ser um super-herói para estudar?”, conta Lúcia.

Muitos deles eram crianças quando ela e Rosana começaram a pesquisa sobre o momento de entusiasmo do consumo com Lula presidente. “Todo mundo dizia ‘vai ser lindo o futuro, cheio de esperança, de sonho’. Por isso a ideia de pegar um momento de emergência, que estava todo mundo sonhando, e pegar o momento da crise, que agora as pessoas se apegam ao Bolsonaro”, diz Rosana.



loading...
Patrocínio

Desenvolvido por: