Homem contratado para trabalhar com Fernando, ex-Grêmio, está preso na Russia
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Homem contratado para trabalhar com Fernando, ex-Grêmio, está preso na Russia

Robson Oliveira trocou Nova Iguaçu por Moscou a convite da família de Fernando, mas foi detido por causa de remédios presentes em mala encomendada pelos parentes do volante

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Foto: Reprodução | Record TV

A bola é o sonho de vida de nove entre dez jovens brasileiros. Raríssimos são os que chegam ao futebol profissional. Mais raros ainda os que fazem fortuna. Esses casos especiais proporcionam vida confortável para suas famílias e muitas outras ao redor. Esta reportagem conta uma história diferente. A trama envolve um homem humilde da Baixada Fluminense que recebe uma proposta para trabalhar em Moscou a serviço de um jogador com passagem pela Seleção.

O sonho de mudar de vida desmoronou. Hoje, o homem que saiu de Nova Iguaçu está preso na gelada cidade de Kashira, a 110 quilômetros de Moscou.

O personagem central dessa história é o volante Fernando, de 27 anos. Cria do Grêmio, foi convocado para todas as seleções de base e esteve no grupo da equipe principal que conquistou a Copa das Confederações de 2013 no Maracanã. O jovem cuja carreira decolava foi logo seduzido pelos dólares do então emergente mercado ucraniano, que desembolsou R$ 36 milhões para levá-lo. Campeão pelo Shakhtar Donetsk, depois jogou na Sampdoria, da Itália, até ser vendido, em 2016, para o maior clube da Rússia, o Spartak Moscou.

Mesmo longe dos holofotes e, naturalmente, das listas da Seleção, o jogador angariou respeito na Rússia e virou ídolo da fanática torcida do Spartak.

Fernando faz parte dessa lista de casos raros de meninos que desejam ganhar a vida jogando bola e conseguem chegar lá. E foi na esteira desse sucesso que outro personagem começou a sonhar.

Robson do Nascimento Oliveira, 46 anos, ex-fuzileiro naval, desempregado, vivia na conta do chá em Nova Iguaçu ao lado da mulher a quem se uniu cinco anos atrás. Cozinheira de mão cheia, Simone Damazio de Barros foi quem abriu a janela de um futuro melhor para o casal, no fim do ano passado. Indicada por uma amiga, ela recebeu uma mensagem em seu WhatsApp no dia 29 de novembro de 2018.

“Eu quero muito que você vá trabalhar com a minha filha fora do Brasil. Por isso convenci a ela que você é uma boa opção para eles. Mas é inegável a necessidade de termos uma experiência antes, então pensei na tentativa de encontrar uma solução, e o que achei é que você poderia trabalhar quatro dias fixos, de quarta a sábado, e você terá três dias livres pra pegar suas diárias, e a outra cozinheira trabalha os outros três dias. Nas festas ela trabalha no Natal, porque você já tem uma ceia, e no Ano Novo você trabalha com a gente. O que você acha?”, enviou Sibele Rivoredo, sogra do jogador e espécie de governanta da família.

A cozinheira topou o desafio inicial, no Rio de Janeiro. Passou o último réveillon na cozinha da mansão do volante no Condomínio Del Lago, na Barra da Tijuca, preparando o banquete da festa da família do jogador.

A proposta de largar tudo no Brasil e seguir para a Rússia era assustadora – cultura e hábitos totalmente diferentes, distância, língua estranha e um país de inverno rigoroso -, mas ao mesmo tempo tentadora, em razão da proposta salarial de R$ 8 mil – praticamente sem gastos, já que teria teto e comida em Moscou.

Sibele, a sogra de Fernando, foi mais direta em outra mensagem para Simone.

“Acho também que você tem que pensar que se a gente quer buscar melhorias a gente tem que arriscar um pouco. E o que você tem certo hoje não é suficiente pra você viver, né?!Com base no que você me falou. Então, é uma oportunidade e você vai ter que fazer uma escolha, porque na vida a gente faz escolhas dos nossos caminhos e são apostas. Nesse caso nós estamos apostando em você e você em nós. Preciso da sua resposta hoje, porque não tenho mais tempo. Te aguardo. Obrigada”.

Somados, salários do casal chegariam a R$ 14 mil em Moscou

Em casa, Simone encontrava resistência: o marido não gostou muito da ideia de ficarem separados por tanto tempo. A cozinheira, então, fez a contraproposta: queria mais um emprego para Robson ir junto para a Rússia. Sibele aceitou. Negócio fechado. Ele trabalharia ajudando na casa e como motorista, recebendo mais R$ 6 mil. A soma dos salários do casal (R$ 14 mil mensais) fez os dois projetarem um futuro melhor.

– Sabíamos que não seria fácil, mas valia o sacrifício. Trabalhando um ano ali, construiríamos nossa casinha – diz a cozinheira.

O casal nunca tinha viajado de avião na vida. Não tinha passaporte, nada. O estafe de Fernando, então, deu início ao processo para levá-los a Moscou.

– Fomos fazer nosso passaporte em Niterói, porque sairia mais rápido. Eles pagaram e marcaram tudo – lembra Simone.

No dia 9 de fevereiro, Robson e Simone fizeram um registro fotográfico já dentro do avião, orgulhosos, rostos colados e sorrisos abertos. Era a decolagem em busca da melhoria de vida. Ou deveria ser. Minutos antes do embarque, porém, o motorista da família de Fernando, identificado como Leandro, chegou ao aeroporto Tom Jobim com três malas. Dentro delas havia encomendas da família do jogador.

“Quando chegar lá, vai ser (sic) duas malas grandes e uma de mão pro Robson num carrinho. Aí no outro carrinho você põe duas malas e sua bolsa (Simone e Robson levavam uma mala pessoal cada). Não passa três malas num carrinho não que chama atenção e eles vão parar. E duas malas é normal. Então você passa duas malas de um e duas de outro, tá?!”, disse Sibele num áudio de orientações para Simone.

Simone e Robson garantem desconhecer que, em meio às encomendas, havia remédios tarja preta que, no Brasil, só podem ser adquiridos com receita médica. E eles atravessaram o portão de embarque no Rio de Janeiro sem as receitas prescritas na bolsa.

Pânico no aeroporto

Dezoito horas mais tarde, o voo da Lufthansa de número LH-1446 pousou no Aeroporto Internacional de Domodedovo, conhecido como o mais rigoroso de Moscou. Eram 17h46 do dia 10 de fevereiro quando o casal pegou as malas na esteira. Ansiosos, estavam tomados pelo frio na barriga para encontrar o “funcionário” de Fernando que iria buscá-los: William Rodela. Não deu tempo.

Nove minutos depois, no hall de saída para o saguão do aeroporto, Robson e Simone escolheram o corredor verde, quando não se tem nada a declarar. Foram parados pelo funcionário A.L. Elisov, agente operacional do Setor de Controle de Circulação de Drogas da Diretoria Linear do Ministério do Interior no aeroporto de Demodedovo, além do major K.S. Losev e do tenente-coronel N.V. Antipov.

Não havia muito o que temer, imaginavam, além do constrangimento e da dificuldade de comunicação, já que as orientações de Sibele eram claras. Em outro áudio, inclusive, ela fala de um possível questionamento sobre um par de alianças do casal Fernando e Raphaela que Simone carregava na bolsa de mão:

“Se eles pararem, as alianças são sua e do Robson. Vocês são casados, se não vai entender o que eles estão falando. Você mostra o seu dedo que é de vocês”, orientou.

O problema estava longe das alianças. Misturadas numa mala preta, em meio a comidas e roupas de criança, havia duas caixas do remédio Mytedom – cloridrato de metadona – 10mg, um potente comprimido para quem convive com dores, principalmente, mas também bastante utilizado no tratamento de recuperação de viciados em ópio e heroína. Daí o problema principal. Na Rússia, a substância é considerada entorpecente. E a quantidade, 40 comprimidos, com a massa de 5,60g de opioide, encaixava-se na nomenclatura da lei que prevê um “volume grande” da droga, infringindo o artigo 229.1, parte 3, do Código Penal da Federação da Rússia.

Bateu o desespero. Os dois se olhavam, tentavam a mímica, até verem William Rodela. Do portão de desembarque, ele avistou o casal negro – o único naquele voo que chegara de Frankfurt parado pela imigração russa. Estudante do terceiro ano de Medicina da Primeira Universidade Médica Estatal de Moscou I.M. Sechenov, William da Silva Sousa, o Rodela, havia se aproximado de Fernando na Rússia, onde uma comunidade de brasileiros se fala em grupos de WhatsApp.

Rodela fazia favores e, em troca, convivia no mundo das famílias dos boleiros, frequentando camarotes em jogos, bons restaurantes e festas. Um dos agentes da imigração russa viu Rodela e autorizou que ele entrasse para servir como tradutor do casal. Robson e Simone esperaram por horas e horas. Tiveram suas digitais coletadas, foram fotografados. Com Robson – que tinha seu nome na etiqueta da mala onde estavam os remédios ilegais – os exames foram além. Urina, sangue e cabelo.

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Denúncia de tráfico internacional de substância ilícita

Na denúncia que o levaria aos tribunais, a Justiça russa descreveu: “Estando no território do Brasil (local e hora não determinados, mas o mais tardar em 10 de fevereiro de 2019) e tendo intenção criminosa de transporte ilícito de substâncias estupefacientes através da fronteira aduaneira da União Aduaneira da Comunidade Econômica Euroasiática, Robson do Nascimento Oliveira adquiriu de pessoa não identificada uma substância estupefaciente com objetivo de seu transporte em aeronave ao território da Federação da Rússia”.

Ou seja: para o Ministério Público local, Robson teve a intenção de preparar a mala com remédios escondidos a fim de cometer o tráfico internacional da substância ilícita. Assim, infringiu também o artigo 30, parte 1, da lei, e o artigo 228.1, parte 4, parágrafo d (preparação do tráfico de substâncias estupefacientes em volume grande).

Naquele momento, Simone estava desesperada. Mandava mensagens sem parar para sua patroa, que curtia férias em família na Grécia e na Itália. Em dois áudios obtidos pela TV Globo, Sibele diz: “Todos os remédios foram médicos mesmo que receitaram e tudo. São remédios que a gente realmente necessita. Então não tem nenhum problema com relação a isso aí. A gente não tá levando nada ilegal, não é nenhuma droga, ninguém é viciado em nada. Isso daí são remédios necessários mesmo”.

Em outro áudio, a sogra de Fernando admite que a medicação, legal e receitada, pertenceria a ela, ao marido William e à filha Raphaela Rivoredo, à época grávida do segundo filho do jogador. “Simone, na Rússia é um pouco complicado entrar as coisas realmente. Inclusive comida. Por isso falei para misturar no meio das roupas e tal. Os remédios não têm nada demais no Brasil. A questão é a quantidade, que foi muita, porque é muito tempo que eu tô, né? Então, por isso que deu esse problema. Mas eu encaminhei para o Rodela a receita. São remédios que realmente é receitado. E a maioria aí dessas caixinhas são minhas, mas tem da Raphaela, tem do William. Então… Mas é isso. Tá sendo resolvido!”, garantiu.

Foto de receita não ajuda Robson

A TV Globo ouviu especialistas que atuam na Rússia para entender se a quantidade de remédios havia sido determinante para o flagrante. A resposta é não. Qualquer opioide (como a metadona) é proibido no país.

No subúrbio de Moscou, a reportagem foi até o conjunto habitacional onde Rodela divide apartamento com dois colegas brasileiros. Ele não estava. Depois, por telefone, confirmou que Sibele, efetivamente, enviou por mensagem uma foto da receita.

– Na hora, no aeroporto, a receita foi mostrada, sim – afirmou Rodela.

– Essa receita médica, em território russo, não serve como uma defesa, isso não livra ninguém nesse caso. É apenas uma receita que mostra que a pessoa necessita de tal remédio, mas ela não livra a pessoa de responder por uma acusação – explica Gennady Esakóv, professor de Direito Penal Criminal russo.

Após o susto, limpeza de neve e passeios em Moscou

Depois de 17 horas de espera no aeroporto, entre as baterias de exames e o procedimento do flagrante, o casal foi liberado para entrar no país, mas, como o professor informou, a investigação contra Robson seguiria adiante. Com William Rodela ao volante, ele e a esposa seguiram para um condomínio de luxo na Rezidentsiya Rublovo, casa 50-A, onde um imóvel de dois andares não sai por menos de R$ 3,4 milhões. Segurança reforçada, bairro silencioso, vizinho de uma escola, Fernando investiu alto para ter sua casa de dois andares num dos endereços nobres de Moscou.

Lá o casal ficou exatos 35 dias apenas cuidando da casa vazia. Passado o susto inicial do aeroporto, era hora de curtir os momentos de folga para passear e conhecer os pontos turísticos da capital russa. Apesar do inverno rigoroso que fazia Robson tirar com a pá o acúmulo de neve da porta da casa, os dois estavam animados.

Machucado e com as férias estendidas, Fernando só voltou a Moscou com a família em 17 de março. Era um domingo à tarde. Como ele, Raphaela, o filho e os sogros estavam vindo juntos, Robson seguiu Rodela até o aeroporto, cada um num carro, enquanto Simone preparava o almoço de boas-vindas dos patrões. Na manhã seguinte, todos acordaram cedo e tomaram café juntos na mesa. Robson ajudava a esposa a lavar a louça quando Raphaela o chamou: “Vamos para sua primeira missão”.

Ele não ouviu, mas Simone o alertou: “Vai, ela tá falando contigo”.

Médico atesta que sogro de Fernando usa remédio para a coluna

Eram cerca de 10h do dia 18 de março quando Rodela, Raphaela e Fernando entraram no carro dirigido por Robson para sua primeira e última missão. Destino: delegacia de polícia do aeroporto de Demodedovo. Enquanto o sogro do jogador estava deitado no quarto de cima, Simone viu na bolsa de Sibele um documento, redigido em inglês, atestando que o paciente William Pereira de Faria fazia uso da metadona em virtude de crônica dor na coluna.

Datado de 26 de fevereiro de 2019, o documento foi assinado pelo médico Marcelo Tayah. A TV Globo o encontrou no consultório na Barra da Tijuca, no Rio. Ele aceitou receber nossa equipe e explicou a situação, mas preferiu não gravar entrevista.

– O senhor William é meu paciente desde 2017 e faz uso desse medicamento, que é prescrito inclusive por outra médica, Mariana Mafra. A senhora Sibele me ligou dizendo que precisava dessa declaração para resolver o problema de um rapaz na Rússia. Mas eu não fiz nada de irregular. Então, se essa declaração não foi entregue, vocês têm que perguntar para eles.

De fato, naquele 18 de março, nem a declaração do médico foi entregue à polícia nem o sogro de Fernando se dirigiu para a delegacia. Simone interpelou Sibele. “O documento está aqui e o senhor William também… Ele deveria ter ido junto, levando o documento”.

– Ela me disse que a Raphaela sabia o que estava fazendo.

Por volta das 15h, Robson teve direito a uma última ligação. “Simone, acho que tá dando ruim aqui. Eu vou ficar preso”. Uma hora depois, Fernando, Raphaela e Rodela voltaram para casa sem Robson. Naquele mesmo dia, ele seguiria, algemado, para a Unidade Penal de Kashira, cidade a uma hora e meia da capital. “Até quarta-feira isso será resolvido”, prometeu Raphaela a Simone.

Versões contraditórias para ausência de Willian na delegacia

A ausência de William, o sogro, na delegacia tem versões contraditórias. O amigo Rodela, pelo telefone, disse que na ocasião lhe foi explicado que o sogro do jogador não estava na Rússia:

– Me falaram que ele não estava na Rússia.

O advogado da família do jogador, Fernando Cassar, deu outra explicação:

– Ele estava com muitas dores, e por isso não pôde ir até a delegacia.

Para o professor Ésakov, se William fosse apresentado naquele dia, ele poderia passar a responder criminalmente também e até ser preso.

– Na verdade, poderia ser aberto também um inquérito contra essa pessoa se o investigador resolvesse que isso era necessário.

Fernando Cassar diz que um advogado russo chegou a ser consultado pelo casal Fernando e Raphaela. Mas ele garante que em momento algum eles foram alertados de que quem se apresentasse poderia ser preso.

– Consultaram um advogado, mas não houve essa informação. Os advogados dão uma informação e o cliente acredita no que estão falando.

Celulares desaparecem na casa de Fernando

Desde 18 de março, quando o marido não voltou para casa, até seu retorno ao Brasil, Simone passou 12 angustiantes dias dentro da casa de Fernando. Exigia respostas, soluções. Queria o marido de volta.

– Eles não me deixaram contar para os filhos dele no Brasil o que estava acontecendo. Teve uma hora que eu falei: “Vocês vão ter que explicar pra família dele o que houve”.

Simone chora nessa parte da entrevista. Carrega um sentimento de culpa porque chegou através dela a oferta de trabalho que poderia mudar a vida do casal.

– A proposta era para mim. E ele acabou indo junto comigo. E lá ficou. Como eu não queria ter conhecido essa família, meu Deus… – desabafa.

A cozinheira jamais pôde visitar o marido em Kashira, já que não é legalmente casada com ele. Só parentes diretos (filhos, pais e esposa) podem entrar na cadeia, mesmo assim depois de um longo e burocrático processo de identificação. Até hoje, nenhum parente visitou Robson.

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Enquanto ficou em Moscou, Simone começou a pegar conselhos com uma amiga que havia feito por lá. O principal deles: enviar áudios e mensagens de WhatsApp para alguém de confiança no Brasil. Simone fez isso. Mandou a um parente a foto que havia feito da declaração médica, além de algumas conversas que tivera com Sibele em texto e áudio no aplicativo de mensagem. Foi a sorte.

Em 30 de março, após passar dois dias na casa da amiga, ela retornou à casa da família de Fernando e foi recebida por Sibele.

– Ela me mandou deixar a bolsa ali que teríamos uma reunião no andar de cima. Eu subi. Lá ela disse que eles não confiavam mais em mim e que era para eu voltar para o Brasil. Quando desci de novo, fui na minha bolsa e vi que os celulares não estavam. Nem o meu nem o do Robson. Eu perguntei o que tinha acontecido, e ela explicou que alguém da segurança interna do condomínio tinha entrado e levado os aparelhos.

No dia seguinte, ela embarcou de volta ao Brasil.

Enquanto a situação de Robson não era resolvida, antes mesmo da volta de Simone ao Brasil, a família de Fernando achou melhor tirar o pai de Raphaela da Rússia. Ao contrário do que teriam dito para Rodela, William Pereira de Faria foi colocado num voo da Air France em 25 de março, desembarcando no Rio de Janeiro sozinho, pouco antes das 6h da manhã do dia 26. O curioso é que, apesar de Robson ter indicado logo em seu primeiro depoimento que a medicação que trazia na mala tinha como destinatário William, ele deixou a Rússia sem sequer ser ouvido pelas autoridades locais. E assim permanece até hoje.

Em depoimento, Raphaela diz não saber a doença do pai nem onde ele mora

Sibele ficou em Moscou por mais quase três meses, retornando ao Brasil em 14 de junho. Ela tampouco prestou depoimento no inquérito. Fernando e Raphaela, sim. Ele, em 6 de junho; ela, em 12 de julho. Ambos negaram qualquer relação com Robson. Em discurso afinado, contaram à polícia que não conheciam Robson, que havia sido contratado por Sibele, mãe de Raphaela.

Apesar de prestar depoimento cinco meses após a ocorrência, a esposa do jogador disse não ter conhecimento de praticamente nada. “Que ela saiba, antes da viagem a Moscou o motorista de seu pai deveria entregar-lhes, conforme o pedido do pai, as roupas infantis para a futura criança dela. Ela não sabe se os pais dela pediram a Simone e Robson transportar algo mais à Rússia. Não sabe em que forma e em que mala Simone e Robson receberam as roupas infantis. Também não sabe quem podia recolher e arrumar essas roupas”.

No depoimento, Raphaela diz desconhecer inclusive detalhes da doença do seu pai: “Raphaela sabe que seu pai William Pereira de Faria está doente, mas não sabe o nome certo da doença, porque tem contatos bastante raros com o pai. Não sabe que o pai pediu remédios a Robson. Decidiu esclarecer esse fato e telefonou ao pai, mas o celular dele estava desligado. Naquele momento, ela e seu marido não prestaram atenção a esse fato”.

No depoimento, a esposa de Fernando tampouco disse saber o endereço do próprio pai: “Raphaela foi perguntada sobre os dados pessoais de seus pais – nomes, endereços e contatos deles. O nome da mãe é Sibele Vieira Rivoredo, o nome do pai é William Pereira de Faria. Não sabe o endereço atual de seus pais, porque eles fazem mudanças bastante frequentemente”.

No Instagram, Raphaela declara amor ao pai

Apesar de relatar contatos raros com o pai no depoimento, Raphaela tem o hábito de postar fotos ao lado dele em sua conta no Instagram, normalmente acompanhadas de dedicatórias. Em agosto de 2017, ela escreveu a seguinte legenda para acompanhar uma foto em que o pai beija sua bochecha.

– O meu herói de toda uma vida não é protagonista de nenhuma história em quadrinhos, filme de ação ou lenda antiga. Pelo contrário, ele é bem real e eu lhe devo a minha vida! Pai, queria achar uma forma de agradecer por tantos anos de dedicação, cuidado, amor e carinho, mas por mais que eu escreva, jamais será suficiente! Então me resumo em dizer que te amo indescritivelmente! Nunca se esqueça disso!

Em seu depoimento à polícia russa, Fernando usou até algumas palavras depois repetidas pela esposa. “Não sabe em que modo os remédios foram recebidos por Robson no Brasil, tampouco sabe a forma de entrega (na mala ou caixas de remédios não empacotadas). Não mantém contatos com William Faria. Não pode comunicar quaisquer dados e endereços do pai e da mãe de Raphaela, porque eles fazem mudanças regularmente”.

Raphaela deu uma possível versão para não saber a resposta de tantas perguntas: “Tomando em conta que ela estava grávida naquele período e que já passou muito tempo, ela pode não lembrar muitos detalhes precisos do acontecido”.

Apesar de Fernando e Raphaela terem dito aos investigadores que não mantinham contato frequente com os pais dela, a TV Globo apurou que William e Sibele passaram ao menos seis longos períodos juntos com o jogador na Rússia e em viagens pelo mundo afora. Somados, foram 235 dias no exterior. No último período, os pais de Raphaela deixaram o Brasil a caminho de Moscou no dia 9 de janeiro, junto com a filha e o jogador. William voltou ao Rio de Janeiro em 25 de março, uma semana após a prisão de Robson. Sibele ficou na Rússia até 14 de junho. Foi a primeira viagem longa que fizeram separados.

Robson usou cocaína em festa de despedida do Rio

Em seu depoimento à polícia russa, Raphaela Rivoredo lembrou de um fato que considerou importante para o enredo da apreensão dos remédios na mala do motorista. Ela relatou que teve uma “conversa séria” com Robson no dia 17 de março, quando voltou de férias com Fernando e teve o primeiro contato com o motorista em Moscou.

“(…) Disseram que ele seria demitido caso continuasse a consumir drogas, porque eles tinham a criança menor e não queriam ter em casa uma pessoa drogada. Robson respondeu que isso nunca mais aconteceria. Por isso, ele e Simone continuaram a trabalhar em casa até o momento de detenção dele”.

Na verdade, Robson só trabalhou até o dia seguinte à conversa, quando foi levado até a delegacia do aeroporto e preso.

Os exames feitos pela polícia russa no motorista na data de chegada a Moscou – 35 dias antes da volta da família de Fernando das férias – apontaram vestígios de cocaína. Advogado da família de Robson, Olímpio Soares reconhece que seu cliente usou a droga numa festa de despedida no Rio pouco antes da viagem, mas diz que ele não é viciado, o que é corroborado pelo exame de sangue feito pelas autoridades russas e a perícia psiquiátrica número 1158, realizada em 15 de abril de 2019: “Não mostrou nenhum sinais clínicos (sic) da dependência de substâncias narcóticas, tóxicas e de álcool, por isso não precisa de tratamento médico de narcomania ou reabilitação médico-social”.

A cocaína detectada no exame de Robson não tem relação direta com o episódio da metadona que levava em sua mala para a Rússia. O remédio, um opioide, é usado para tratamento de dependência de heroína, não cocaína, de acordo com especialistas ouvidos. Ainda assim, para Gennady Esakóv, a situação do brasileiro pode piorar em virtude disso.

– Não há uma lei especifica, mas é ruim no sentido de que o juiz pode não acreditar que ele não sabia o que estava transportando. É a mesma situação se tivessem me dado uma bolsa com narcóticos, estou levando ela mas digo que não é minha e não sabia. Mas fazem um exame em mim e encontram drogas, sobre mim automaticamente surgem uma dúvida e a desconfiança de que estou mentindo. Isso não está escrito na lei, mas são duas versões contadas e uma prova contra ele – explica o professor.

Família muda de versão

Robson do Nascimento Oliveira foi ouvido três vezes ao longo da fase de investigação. Sob orientação de um advogado contratado pela família de Fernando, ele se recusou a prestar depoimento formal, fazendo questão apenas de “reconhecer a culpa pelo crime cometido”. Mais tarde, em 4 de julho, num terceiro depoimento, Robson foi questionado sobre a confissão que havia feito e relatou que “naquele momento isso era posição de seus defensores”.

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– O advogado contratado lá estava defendendo os interesses da família do Fernando, não do Robson – argumenta Olímpio Soares, que orientou que o motorista pedisse a destituição do advogado.

A família de Robson pediu ajuda oficial à embaixada brasileira em Moscou para que fosse contratado um advogado, já que não tem recursos para pagar. O processo parou nas mãos da Defensoria Pública. A indicada foi Liudmila Dubrovina, que começou a ter embates técnicos na estratégia de defesa com o advogado do Brasil.

– Ela queria que ele confessasse porque a pena poderia ser menor, mas ele disse que não queria, porque nada daquilo era dele. A verdade é que ele nunca teve uma defesa justa lá – diz Soares.

A reportagem fez contato cinco vezes com Dubrovina, e ela avisou que a defesa no Brasil estava atrapalhando e que não gravaria entrevistas em vídeo. Por telefone, ela aceitou conversar.

– A mãe da esposa do jogador mandou esse remédio para o marido dela que estava na Rússia, mas provar isso ninguém consegue. Se ele assumir a culpa, o juiz tem o direito de diminuir a pena dele, por exemplo, para cinco anos, mas, se ele não assumir a culpa, ele deve pegar 13 a 15 anos de prisão – explicou.

Defensora pública russa abandona o caso

A defensora abandonou o caso no dia em que a TV Globo chegou a Moscou. Para ela, a exposição do caso era pior para Robson, já que possíveis provas que inocentariam o réu não poderiam ser usadas na Justiça russa.

– Ele cruzou a fronteira com esse remédio, então ele vai responder por esse artigo pelo qual está sendo julgado. A situação dele era boa até o momento em que vocês começaram a se meter nisso, até o momento em que o advogado brasileiro entrou nesse caso – disparou.

Para Dubrovina, não há o que ser feito em relação aos áudios e outras provas coletadas pela família de Robson.

– O problema é que esses áudios não livram o Robson. Isso só é um fato a mais, mas conferir isso ninguém pode, porque todos foram embora daqui, alguns para a China, alguns para o Brasil. E trazê-los para cá ninguém pode.

O professor Ésakov discorda da análise da defensora pública.

– Não é bem assim, mas esse áudio, para ser aceito como prova, tem que seguir um protocolo existente na lei russa. Análise de voz, perícia, enfim. Mas é possível, sim. Na Rússia essa pratica é comum.

Contratado nas últimas semanas para defender a família do jogador, Fernando Cassar mudou o tom que os parentes vinham adotando. E, pela primeira vez, admitiu que os remédios eram para William e que Robson não tinha conhecimento de que transportava algo ilegal.

– Os remédios estavam sendo levados para o senhor William, que faz uso desses remédios com prescrição médica. A mulher do senhor William pediu para que o Robson levasse uma mala com objetos pessoais da família, tais como roupas, escova de dentes, enfim, todos objetos necessários para que pudessem entregar lá, já que o Robson foi fazer um trabalho na Rússia através de um contrato de experiência. Então ele era a pessoa disponível para levar essa mala, ele foi junto com a mulher dele, a Simone, levaram duas malas pra lá. E numa dessas malas estava o medicamento de uso do senhor William, que sempre usou o medicamento, não só aqui no Brasil, lá mesmo na Rússia, em outros países da Europa onde viaja, porque é um medicamento para as dores fortes que ele sente, diabetes que ele tem – disse o advogado.

Testemunhas: Raphaela encomendava remédios em grupos de brasileiros

Longos períodos fazem com que o dependente de um determinado remédio só vendido com prescrição médica seja obrigado a fazer estoques desse medicamento. Na comunidade brasileira de Moscou, o grupo de WhatsApp que reúne parentes e amigos de boleiros na capital registra alguns pedidos de encomenda de remédios feitos por Raphaela.

A TV Globo conversou com um atleta, uma esposa de jogador e com uma outra pessoa, e os três relatam esses pedidos de encomenda do Brasil. Certa vez, segundo um integrante do grupo, uma advogada se recusou a levar os remédios pedidos por Raphaela; noutra, alertou que esse tipo de medicamento precisava de muito cuidado, já que poderia ser proibido na Rússia.

– Era comum a Rapha fazer esse tipo de encomenda a quem vinha ao Brasil – revela o jogador, que pede para não ter sua identidade revelada.

Segundo o advogado da família de Fernando, nem os sogros do volante nem os médicos deles sabiam que a metadona era proibida na Rússia.

– Esse medicamento é permitido em mais de 160 países, então eles jamais sabiam disso. Não está escrito isso em nenhum medicamento, não está escrito nas receitas, então a boa-fé foi total, tanto assim é que o próprio senhor William sempre carregou o medicamento pra onde fosse. O próprio médico… Um dos médicos dele, em viagem, já levou medicamentos para ele na Rússia. Se um médico levou o medicamento e não sabia, como o usuário do remédio vai saber? – diz Cassar.

Questionados, os médicos de William, Marcelo Tayah e Mariana Mafra negaram ter levado o remédio para a Rússia.

Spartak chancelou a permanência de Robson e Simone na Rússia

Nas últimas semanas, a TV Globo tentou falar com todos os personagens envolvidos. Na Rússia, o caso teve muito pouca repercussão – só um site mencionou a história. Jornalistas esportivos e torcedores sequer tomaram conhecimento da trama. No último dia 19, a reportagem foi à Arena Otkrytie, a casa do Spartak, para saber de quem acompanha o futebol russo sobre as circunstâncias da saída do jogador do clube.

Nenhum dos entrevistados sabia que Fernando estava envolvido num caso que poderia gerar pena de 25 anos de prisão a um ex-motorista do jogador. Procurado para dar uma versão do clube, o assessor de imprensa do Spartak, Anton Lissin, foi sucinto.

– O Spartak não comenta nada porque o jogador não tem mais vínculo com o clube.

A reportagem insistiu na tentativa de obter uma posição do clube. Afinal, o Spartak ajudou Fernando na hora de legalizar a situação do casal de funcionários assim que eles chegaram a Moscou, dando o registro de permanência obrigatório para quem fica mais de sete dias no país.

– Não vou falar nada sobre isso porque não quero. Ele não é mais jogador do clube, por isso acho que é desnecessário comentar isso. Aqui encerro nossa conversa – afirmou o diretor jurídico do clube, Alexander Tsomaya.

Fernando foi vendido pelo Spartak ao Beijing Guoan, da China, no fim de julho numa rápida transação por cerca de R$ 63 milhões. E saiu sem nem falar com os próprios companheiros de clube sobre o momento que vivia fora de campo.

– Nunca ouvi falar dessa história de motorista do Fernando preso aqui na Rússia – diz o lateral-esquerdo Ayrton Lucas, ex-Fluminense, que conviveu com o volante no Spartak nos últimos seis meses.

Ao deixar a Rússia, em 30 de julho, o volante mal teve tempo de retirar pertences pessoais. A foto do casal na sala, os brinquedos do filho pequeno e as roupas de frio de Raphaela continuam expostas na casa de vidro do luxuoso condomínio onde a família vivia em Moscou.

A família de Robson tenta contratar um novo advogado para ele na Rússia. Na semana passada, a família de Fernando prometeu arcar com as custas. O julgamento do motorista deve ser retomado no dia 8 de outubro, quando, enfim, será ouvido pelo juiz do Tribunal de Demodedovo. Se condenado, ele pode pegar até 25 anos de prisão.

A Embaixada brasileira em Moscou tem dado assistência a Robson. A vice-cônsul Ana Paula Alvim fez visitas para assegurar que ele está preso numa unidade em condições minimamente boas. Ainda assim, ele já perdeu 20 quilos em cinco meses de cárcere. Na página do Itamaraty, foi incluído também um alerta, com orientações para brasileiros que viajam ao exterior levando remédios. Na Rússia, em especial, a atenção precisa ser redobrada. (GloboEsporte)

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