Histórias e fotos da maior enchente que Porto Alegre já teve
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Histórias e fotos da maior enchente que Porto Alegre já teve

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Por Nubia Silveira / Sul21

Os mais antigos têm bem viva na memória a maior enchente que já atingiu a cidade: a de 1941. “Foi horrível”, repete a cada frase Helenita Barcelos, que tinha 17 anos, trabalhava na Neugebauer e estava noiva, quando as águas invadiram a sua casa, na Avenida Brasil, Bairro Navegantes. “Aquela noite foi horrível. Saímos de casa com a roupa do corpo. Não dava para salvar nada. O meu enxoval ficou todo manchado”. Ela lembra que, apesar de ser “um dia de sol, bonito”, as águas subiam pelos bueiros e tomavam conta da cidade. A chuva tinha parado. “Meu noivo e eu fomos até a Voluntários da Pátria e vimos a água subindo. Voltamos para minha casa e ele colocou tudo sobre as cadeiras. Não adiantou nada”.



Centro foi uma das partes mais atingidas l
Foto: Acervo do Museu Joaquim José Felizardo

As lembranças de Vera Bercht, que tinha 10 anos e era aluna do 3º ano primário, no Colégio Farroupilha, parecem mais leves. Vera recorda que ficou feliz porque as aulas foram suspensas. Os colégios se transformaram em abrigos para os 70 mil flagelados, quase um quarto dos então 272.232 habitantes de Porto Alegre. Os estudantes mais velhos se encarregavam da cozinha. Faziam sopão para alimentar os que tinham salvado apenas a vida. Duas centenas perderam também a vida.

Nas enchentes anteriores, como as de 1928 e 1936, menos graves, Vera divertia-se vendo o pai sair pela janela – “se abrisse a porta, ela não fecharia mais” – e ir trabalhar de barco. A porta da casa ficava no nível da rua Voluntários da Pátria, mas ao entrar era preciso subir oito degraus até atingir o interior da residência. Tudo ficou sob 80 centímetros de água. E a família precisou abrigar-se na casa de uma das avós, na Avenida Alberto Bins.



Foto: Acerdo Museu Joaquim José Felizardo

O médico Henrique Licht, que em 1941 era aluno da Faculdade de Medicina e do CPOR, ajudou a atender, por alguns dias, os doentes levados para o Hospital Central de Atendimento, montado num conhecido e desativado cabaré, na rua Andrade Neves. No Clube dos Caçadores, o médico Fernando Schneider coordenava médicos e futuros médicos no atendimento da população.

Henrique diz que as doenças tratadas eram comuns à situação, em que todos viviam molhados. Ele acabou diagnosticado com febre paratifoide e teve de ficar em casa, na Rua Alberto Bins – “na altura de onde hoje está o Hotel Plaza” –, para onde seu pai levou amigos e funcionários. “Nos dois andares da casa viviam 28 pessoas. O problema eram os banheiros, insuficientes para atender tanta gente”. Quando a enchente baixou foram registrados casos de lepistopirose em Porto Alegre e na Grande Porto Alegre. Henrique diz que foram registrados na região 10 mortes.



Sem luz e sem água potável

Henrique, Vera e Helenita têm uma mesma recordação: faltou luz e água potável, justamente por causa dos 619,4 milímetros de chuva que caíram sobre a cidade entre os dias 10 de abril e 12 de maio. A Usina do Gasômetro, fornecedora de luz, ficou inundada e a Hidráulica parou de funcionar, com os equipamentos tomados pela enchente. No cais do Porto está a marca da altura a que a água chegou: 4,63 metros. Henrique alerta que alguns falam em 4,75 metros.

A enchente era esperada depois de uma forte chuva| Foto: Acervo Museu Joaquim José Felizardo

Cada um viveu de uma forma esta situação. Os seis a oito homens, abrigados na casa de Henrique, iam até a Cervejaria Continental – comprada em 1946 pela Cervejaria Brahma – buscar água potável, encontrada nos poços artesianos. Na casa do tio de Helenita não faltou nada para os abrigados. Vera conta que a avó mantinha um depósito de água. “Para os banheiros, buscávamos água da enchente”. À noite, à luz de velas, Vera, os pais, os tios e os primos esqueciam da calamidade, jogando cartas.

Além das Ilhas, onde viviam, segundo Henrique, cerca de cinco mil pessoas, os bairros mais atingidos em Porto Alegre, foram o Centro, Navegantes, Passo D’Areia, Menino Deus e Azenha. Locais banhados pelo Guaíba e pelo Riacho Ipiranga. O lago Guaíba e todos os rios da região (Gravataí, Sinos, Caí, Jacuí) transbordaram. A enchente de 41 atingiu todo o Rio Grande do Sul. “Uma tia minha havia ido para as águas termais de Iraí e não conseguia voltar porque as estradas estavam intransitáveis”, afirma Vera.




Newton de Oliveira, que tinha sete anos em 1941, enfrentou a enchente na cidade de Niterói, que naquela época era um bairro de Canoas. Seu pai trabalhava na Companhia de Petróleo Atlantic e a família morava na área da empresa. Na tentativa de permanecer em casa, os pais levantaram os móveis. Não adiantou. Precisaram abandonar casa e rumar para Porto Alegre. “Viemos num barco daqueles que levavam querosene e gasolina para as cidades do interior”. Na hora da partida, Newton caiu na água. Uma tia usou os pés para salvá-lo e puxá-lo para dentro do barco.

Os rios continuaram a subir depois que a chuva parou. Os ventos impediam que as águas corressem para a Lagoa dos Patos. Foram dias de pânico, mas também de muita solidariedade. Quem morava nas partes mais altas da cidade, acolhia parentes, amigos e desconhecidos. Dividia não só a casa, mas a comida, difícil de encontrar por aqueles dias. Os clubes náuticos se encarregavam de andar pelas Ilhas, recolhendo os flagelados. As Igrejas, clubes, cinemas, como as escolas, recebiam os desabrigados.

Os que eram obrigados a sair de casa, tentavam salvar o máximo possível. Vera lembra de um tio que não se contentou em salvar a família e as roupas. Levou junto as galinhas que criava na rua São Pedro, “para os lados da Voluntários”, no Navegantes.



Frutas cítricas não faltaram

Vera ri ao falar sobre o passado. “Agora é divertido”, diz. A comida andava escassa. Mas não faltavam frutas cítricas, que chegavam em lanchões ao cais do Porto. “Leite faltou. Cada pessoa tinha direito a um litro. Eu, uma prima e uma empregada íamos buscar leite”, recorda. Acabaram se alimentando de farinha láctea, arroz, feijão, sopa. “Meu pai saía e comprava o que encontrava de comida. Dinheiro não faltou. Acho que ele guardava embaixo do colchão”. Apesar das dificuldades, diz Vera, “ninguém emagreceu”.

Os dias eram de solidariedade, humildade e simplicidade. Ninguém se importava em sair pelas ruas e andar nos bondes com roupas encharcadas, mal-arrumados. Os ladrões também deram uma trégua. Não foram registrados saques, roubos, assaltos, mortes. A porta da casa de Vera foi levada pela enchente, mas tudo permaneceu lá, intacto. Vera acha que a ordem se deveu também a um boato que corria pela cidade: se alguém fosse pego roubando seria morto pela polícia. Boato nunca confirmado.



Nada foi perdoado pela enchente l Foto: Acervo do Museu Joaquim José Felizardo

Comerciante, o pai de Henrique decidiu fechar as portas da loja de ferragens, que possuía na Voluntários da Pátria. “Seja o que Deus quiser”, ele disse. Para não perder tudo, levava as ferragens para casa, onde eram limpas e secas, evitando que enferrujassem. A recuperação dos negócios levou cerca de um ano.

Os grãos estocados nos armazéns do Porto foram colocados para secar sobre lonas estendidas na Avenida Farrapos. O cheiro era horrível.




Os prejuízos causados pela enchente de 1941 foram calculados em 50 milhões de dólares.

A seguir, mais fotos da enchente de 41:

Rua Uruguai no Centro de Porto Alegre. A Cafeteria A Brasileira existe até hoje.
Rua Uruguai no Centro de Porto Alegre. A Cafeteria A Brasileira existe até hoje.
A Praça da Alfândega.
A Praça da Alfândega.


Vista aérea do Centro da cidade.
Vista aérea do Centro da cidade.
A Rua, literalmente, da Praia
A Rua, literalmente, da Praia
O Mercado Público em maio de 1941
O Mercado Público em maio de 1941
Porto Alegre sob as águas l Foto: Acervo do Museu Joaquim José Felizardo
As águas subiram rapidamente l Foto: Acervo do Museu Joaquim José Felizardo
População sofreu com falta de luz e água potável l Foto: Acerto do Museu Joaquim José Felizard


A água subiu 4,63 metros l Foto: Acervo do Museu Joaquim José Felizardo
Duzentas pessoas morrem na enchente de 41 l Foto: Acervo do Museu Joaquim José Felizardo
A água subia mesmo sem chuva l Foto: Acervo do Museu Joaquim José Felizardo
Deslocamentos só em barcos l Foto: Acervo do Museu Joaquim José Felizardo
As águas custaram a baixar l Foto: Acervo do Museu Joaquim José Felizardo
Comércios foram fechados l Foto: Acervo do Museu Joaquim José Felizardo
Os prejuízos somaram 50 milhões de dólares l Foto: Acervo do Museu Joaquim José Felizafo



População viveu momentos de pânico e solidariedade l Foto: Acervo do Museu Joaquim José Felizardo
Os carros flutuavam l Foto: Acervo Museu Joaquim José Felizardo
A ambulância ficou submersa na enchente
A ambulância ficou submersa na enchente
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