Grêmio vai adotar ação inédita para combater racismo no futebol – Porto Alegre 24 Horas
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Grêmio vai adotar ação inédita para combater racismo no futebol

‘Objetivo maior é que pessoas preconceituosas, racistas, sintam-se excluídas do ambiente da Arena”, diz Bugin

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Foto: Luiza Prado | JC

Por Patrícia Comunello | Jornal do Comércio

Em meio a casos recentes de racismo no futebol, seja contra o ex-jogador colorado Taison na Ucrânia como nos estádios brasileiros, uma novidade vai entrar em campo em breve. O Grêmio vai implantar uma experiência inédita no Brasil de ações contra o racismo. Esta quarta-feira (20) é o Dia da Consciência Negra.

Trata-se do laboratório experimental de práticas antirracistas no futebol que será oficializado em um protocolo de intenções entre o Tricolor com a Defensoria Pública da União (DPU). O Grêmio será o primeiro time no País a firmar um acordo nestes moldes com a instituição. O documento será assinado no começo de dezembro na sede do clube, na Arena Porto-Alegrense, entre a direção Tricolor e representantes do Grupo de Trabalho de Políticas Etnorraciais da DPU.

O Grêmio foi procurado pela coordenadora do grupo, Rita de Oliveira, na metade do ano, no intervalo do Campeonato Brasileiro para a realização da Copa América no Brasil. Rita apresentou a proposta de ações conjuntas. O clube topou na hora.

Um dos casos recentes que mais ruborizaram o futebol, que teve como palco a Arena, foi em 2014 e envolveu torcedores e o ex-goleiro do Santos Mário Lúcio Duarte da Costa, o Aranha. Na época da injúria racial, o Tricolor foi punido pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) com a exclusão da Copa do Brasil. Este fato e também ações do clube para mudar este quadro suscitaram a ideia na DPU de propor a nova estratégia de abordagem ao Tricolor.

O divisor de águas ou de campos é que o Tricolor decidiu firmar uma lógica nas iniciativas para banir o preconceito. Em vez de seguir em campanhas mais efêmeras, que surgem no calor de novos fatos ou datas, o clube parte para ações mais permanentes que estão em um pacote mais farto, com mudanças “estruturais”, como definem seus dirigentes.

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O vice-presidente do Conselho Deliberativo do Grêmio, Alexandre Bugin, explica que a parceria com a DPU faz parte de mudanças mais profundas na forma como o clube está encarando este tema e outras faces da discriminação, não só de raça, mas gênero e outras dimensões. Além disso, o pacote gremista abrange um maior engajamento em temas de inclusão. O pacote sob o guarda-chuca do Clube de Todos será apresentado em sessão do Conselho Deliberativo na próxima segunda-feira (26).

“O nosso entendimento é que o ambiente do estádio de futebol, de um jogo, da torcida, é indutor para este tipo de manifestação de quem já é preconceituoso, que é uma minoria, mas que, às vezes, prejudica a maioria”, diagnostica Bugin, indicando que o episódio Aranha foi crucial para inserir as mudanças.

“Desenvolvemos uma série de campanhas, envolvendo diversas áreas do clube e com as torcidas organizadas. Este ano resolvemos que chegou o momento de fazer uma estruturação de todos estes trabalhos”, amplia o vice-presidente.

O projeto do Clube de Todos está sendo formatado desde maio por um grupo multidisciplinar, que vem se reunindo periodicamente e envolve conselhos (Administração e Deliberativo), área jurídica, comunicação, marketing e responsabilidade social e departamento de torcidas. “Esse grupo está pensando esses temas cotidianamente”, resume Bugin.

O Clube de Todos vai abranger o laboratório em parceria com a DPU. A coordenadora do grupo da defensoria da União, Rita de Oliveira, aponta a expectativa de que a experiência insira novas abordagens e condutas quando se trata de racismo. “Precisamos fazer um trabalho de base, abrangendo o universo de dinâmicas institucionais do clube e também o posicionamento em relação ao racismo estrutural”, pontua Rita.

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“Essa abertura e esse passo com o Grêmio são importantes para realmente colocar o debate dentro de campo e que ele não saia mais”, reforça a defensora.

Estatísticas advertem para ações

Dados do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, criado no Rio Grande do Sul em 2014 e tocado por dois voluntários, apontam que, até o começo de novembro deste ano, são 42 casos de racismo dentro dos estádios, desde partidas de campeonatos locais até a primeira divisão. Desse número, 13 foram em campos gaúchos, a maior estatística, segundo o observatório. Os registros são baseados em notícias da imprensa, explica o diretor da iniciativa de monitoramento, Marcelo Carvalho.

O Grêmio teve em 2019 um caso que chegou a ser avaliado como suposta injúria racial em jogo contra o Fluminense. O lateral do clube do Rio acusou torcedores gremistas de prática de racismo contra o jogador Yony González. A perícia do STJD descartou como racismo. “O tribunal reconheceu as ações que o Grêmio vem fazendo”, observou o dirigente.

A primeira atividade do protocolo a ser firmado será um fórum, com data que deve ser divulgada na assinatura do acordo e que deve ocorrer na largada de 2020. O fórum vai reunir especialistas em Direito e História do futebol, técnicos, jogadores, dirigentes de clubes e da Justiça Desportiva e ativistas.

O ex-técnico do Grêmio e hoje no Bahia, Roger Machado, deve ser um dos convidados, adianta a defensora. O termo terá um conjunto de intenções que vão desde formação em escolas de base, da torcida e de pessoas para fazer observação em jogos. O clube também vai analisar mudança no estatuto para inserir capítulo específico sobre racismo e outras discriminações. Proposta com esta linha deve ser levada em 2020 aos conselhos.

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Bugin lembra que racismo e outras discriminações estão “implícitas” no artigo 48 que trata dos chamados crimes infames, punidos com exclusão do quadro de associado. Também o Código de Ética, de 2006, trata como dever do sócio não agir com preconceito ou distinção de raça, sexo, nacionalidade, idade, religião, cunho político e posição social. “A intenção é ter um capítulo que deixe mais explícita a conduta contra o preconceito”, adianta o vice-presidente.

O recado já é e vai ser mais contundente: “O objetivo maior é que pessoas preconceituosas, racistas, sintam-se, no curto e médio prazo, excluídas do ambiente da Arena”.

O observatório, que lidera a campanha #ChegadePreconceito, com ações envolvendo Grêmio e Inter como a entrada de jogadores e crianças com a camiseta da campanha em campo no Grenal 422 de 3 de novembro, será um dos apoiadores da cooperação com o DPU. “A iniciativa é muito importante, pois traz a autoridade e o clube para a luta”, valoriza Carvalho.

Além da educação, o integrante do observatório diz que “é preciso trabalhar com punição para inibir e evitar que outros torcedores se manifestem”. Entre as sugestões de medidas, está formar pessoas para monitorar os jogos, tentando identificar atitudes de discriminação.

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