Freiras denunciam trabalho serviçal e a falta de reconhecimento da Igreja Católica
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Freiras denunciam trabalho serviçal e a falta de reconhecimento da Igreja Católica

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“Empregadas a servir os homens, levantam-se de madrugada para preparar o café da manhã e vão dormir apenas após o jantar ser servido, a casa estar arrumada e a roupa lavada e passada. Neste tipo de serviço, as irmãs não têm horário contado e regulamentado e a remuneração é incerta, muitas vezes muito modesta”. Esse texto, que poderia estar num libelo feminista, foi publicado na edição deste mês da revista “Donne, Chiesa, Mondo” (Mulher, Igreja, Mundo), encartada no jornal do Vaticano “L’Osservatore Romano”, e denuncia a exploração do trabalho das freiras dentro da Igreja Católica.

Historicamente, a estrutura da Igreja Católica relega as mulheres a segundo plano, inclusive aos serviços domésticos das residências de padres, bispos e até mesmo do Papa. Francisco vive numa casa de hóspedes do Vaticano que funciona como um hotel, então é servido por funcionários pagos, mas seu antecessor, Bento XVI, era cuidado por oito mulheres da organização Memores Domini. João Paulo II tinha uma equipe de cinco freiras polonesas que trabalhavam no apartamento papal do Palácio Apostólico.



 Diferente dos padres, as freiras dificilmente recebem salários. Segundo a Irmã Paula, nome fictício de uma religiosa com posição importante da Igreja, é difícil avaliar a extensão do problema. As freiras recebem muito pouco ou nada por seu trabalho, seja nos afazeres domésticos em bispados ou paróquias, ou no atendimento em escolas e clínicas e na atuação pastoral.

“Muitas vezes as irmãs não têm contrato ou acordo com os bispos ou paróquias com quem trabalham”, apontou Paula. E essa falta de remuneração coloca em risco as congregações, que são mantidas pelas irmãs.

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“Como fornecer os fundos necessários para a formação religiosa e profissional dos membros, como pagar as contas quando as freiras ficam doentes, como encontrar recursos para a realização de uma missão?”, questiona Paula.



Sagundo Maria, que recebe freiras de todo o mundo em Roma, as freiras relatam estar “profundamente frustradas, mas têm medo de falar” porque muitas vezes existem histórias complexas por trás dos votos com a Igreja. Pode ser uma mãe doente que é cuidada pela congregação ou um irmão que conseguiu prosseguir com os estudos com o apoio da comunidade religiosa.

“E muitas vezes elas são provenientes de famílias muito pobres. Algumas dizem que estão felizes, não veem os problemas, mas ainda assim sentem uma forte tensão interna”, contou Maria. “Tais mecanismos não são saudáveis e certas freiras chegam, em alguns casos, a tomar ansiolíticos para suportar a frustração”.

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Muito além do dinheiro

E a falta de pagamento não é a principal reclamação das religiosas, mas a falta de reconhecimento. Irmã Paula contou ter conhecido freiras com doutorado em Teologia que foram enviadas para cozinhas e lavar louça. Contou ainda sobre uma freira que lecionou por anos em Roma e, de um dia para outro, aos 50 anos, foi realocada para a função de abrir e fechar a igreja da paróquia.




“Por trás de tudo isso, infelizmente, ainda existe a ideia de que a mulher vale menos que o homem. O sacerdote é tudo, enquanto a freira é nada. O clericalismo mata a Igreja”, comentou Paula. “Conheci freiras que serviram uma igreja por 30 anos e, quando estavam doentes, nenhum padre aos quais serviu foi visitá-la. Quando a freira fica doente ela é enviada de volta para a congregação, que envia outra para substituí-la. É como se fossemos descartáveis”.

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Para a Irmã Cecília, que trabalha como professora sem contrato, as mulheres religiosas são vítimas de uma longa tradição, inciada por São Vicente de Paulo e todos os outros que fundaram congregações para servir aos pobres, e criaram uma confusão entre os conceitos de serviço e gratuidade.




“Somos religiosos para servir ao máximo e isso cria a crença de que a retribuição não se enquadra na ordem natural das coisas, seja qual for o serviço que oferecemos”, avaliou Cecília. “As irmãs são vistas como voluntárias que podem ser organizadas à vontade, o que dá espaço a abusos de poder”.

“Jesus veio nos libertar e aos seus olhos somos todos filhos de Deus”, disse a Irmã Maria. “Mas, na vida concreta, certas freiras não vivem isso e sentem uma grande confusão e profundo desconforto”.



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