As revelações de Koff sobre Grêmio, Arena e a história de Renato
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As revelações de Koff sobre Grêmio, Arena e a história de Renato

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A porta do elegante apartamento no bairro Rio Branco se abre e do outro lado está um bem disposto senhor de 86 anos, dono de uma história que se confunde com a do Grêmio, clube que esteve à frente nas suas três conquistas mais importantes até hoje: as Libertadores de 1983 e 1995 e o Mundial de Clubes de 1983. Se havia alguns meses, os torcedores gremistas se preocupavam com as condições de saúde do ex-presidente, as notícias são alentadoras. Fábio Koff parece mais do que recuperado, a ponto de não abrir mão de algumas cervejas e bolinhos de bacalhau ao longo das quase quatro horas em que recebeu a reportagem do Correio do Povo, na noite de terça-feira passada. Neste meio tempo, não fugiu de um assunto sequer. Respondeu com vivacidade sobre os enfrentamentos que teve quando comandou o Clube dos 13, revelou bastidores de suas várias passagens como presidente do Grêmio e não titubeou em elogiar o tradicional rival. A seguir, estão os principais trechos da conversa com o dirigente mais icônico da história do Grêmio.

O RECEIO APÓS O 7 A 1
“Eu fui a São Paulo para contratar o Felipão. Fui lá, me reuni com ele em um restaurante. Ele estava constrangido até de sair de casa. E eu perguntava por que. ‘Três eu tomei, mas os outros quatro eu não tenho culpa nenhuma’, dizia para mim. Eu senti o Felipão procurando espaço. Ele não queria ficar longe do futebol, queria uma equipe para treinar e a preferência dele era o Grêmio. Como a do Grêmio era por ele. Ele não tinha proposta de ninguém.”

A SAÍDA DE FELIPÃO EM 2015
“A saída do Felipão coincidiu com a minha hospitalização. Porque antes fizeram uma manobra tentando desestruturá-lo, tá? Começaram com aquele diz-que-diz. Eu então chamei uma reunião e avisei que enquanto eu estivesse aqui, o Felipão estava comigo. Aí veio aquele doença terrível, fiquei seis meses hospitalizado e o Felipão saiu naquela época. Acho que ele saiu desgostoso sim. Houve muita onda, fogo amigo. O Felipão é um treinador à moda antiga. Além de motivador, ele não se afastava de um sistema de treinamentos, de futebol que ele adotava. Então esta questão moderna que existe, de fazer mini treinos, ele era contra. Aí vínhamos de um período do Enderson Moreira, que é um técnico moderno, tem cursos e tal e que adotava essas coisas. O Felipão uma vez me disse uma coisa muito simples: ‘Doutor Fábio, esta questão de 4-3-3, 4-1-4-2, esquece. Só há duas maneiras de jogar futebol: ou o senhor privilegia a bola ou a ocupação do espaço’. Quando ele veio a última vez, estive com ele em São Paulo e ele me falou: ‘O senhor lembra o que eu lhe disse? Não mudei de ideia, eu jogo por ocupação de espaço. Se tiver que fazer jogada longa, eu faço, se tiver que fazer curta, eu faço. Desde que o jogador tenha ocupado o espaço dele’. Está bem, todos temos um pouquinho de técnico, disse que depois ele visse o plantel que teria na mão para ver o que fazer. E ele tentou implantar este sistema no Grêmio. Não deu. E trouxe um único jogador que iria ter o toque de bola na meia que ele insistiu comigo, que era o Douglas. ‘Está ficando louco?’, perguntei. Ele insistiu: ‘Só quero esse’. E acertou.”



A CONTRATAÇÃO DE WALACE
“O Walace são essas coisas do futebol. Eu estava em Jurerê e o presidente do Avaí, que era o Dr. Zunino, era amigo de um amigo em comum comigo. Houve um jantar na casa de um amigo e nos encontramos. Ele me contou que estava pegando o Avaí em uma situação difícil e tal. Me contou que tinha algumas ações de marketing já planejadas, mas que precisava do (meia) Marquinhos. Ele me disse: ‘Preciso do Marquinhos, que é um deus aqui. Coloco ele na rua e é uma coisa de louco, é um ídolo aqui’. Eu disse: ‘Tá, e eu preciso de um centromédio que tu tens aí, que jogou na Copa São Paulo, o Walace’. Ele me disse que não tinha como pagar o salário do Marquinhos. ‘Eu pago o salário’, respondi: ‘O contrato dele termina em agosto, pago até lá. Vocês me dão 50% do Walace e está feito o negócio’. Aí ele me disse que não podia dar 50% porque fulano tinha 20%, sicrano tinha 20%. Respondi que não ia fazer o negócio se não fosse nestas condições. Fez. Veio o Walace.”

RAMIRO E BRESSAN
“Apenas 10% dos direitos do Ramiro e do Bressan são do Grêmio, o resto é de um fundo de investimentos inglês. Então quando falam que a venda do Ramiro vai ajudar na situação financeira do clube, não vai ajudar em quase nada porque o Grêmio só tem 10%. Foi um aperto. Eu comprei na época o Ramiro, o Bressan, o Alex Telles e o goleiro Follmann, os quatro por R$ 1,2 milhão, pago em oito vezes. Antes de completar oito meses, vendemos o Alex Telles por 6,5 milhões de euros, uma transação cara na época.”

Vi os vídeos do Geromel: mal, mal, durão, não se movimentava. Aí telefonei para o Felipão. ‘Joga no Grêmio?’, perguntei. ‘Joga’, ele me disse’

LUAN E GEROMEL

“Disputamos o Luan por em torno de R$ 300 ou 400 mil, não me recordo bem. Disputamos na época ele com o São Paulo. Ele já havia jogado a Copa São Paulo. O Geromel foi uma insistência, vou reconhecer, do (então diretor de futebol) Rui Costa. Eu vi os vídeos dele: mal, mal, durão, não se movimentava. Aí telefonei para o Felipão, que me disse que eu podia contratar. ‘Joga no time do Grêmio, Felipe’?, perguntei. ‘Joga’.”

RENATO QUASE FOI PARA O OPERÁRIO

“Em 1982, quando assumi o Grêmio, fiz um departamento de futebol e dei uma autonomia relativa para eles. As contratações tinham que passar por mim e pelo tesoureiro. Um dia, estava na sala da presidência e o Verardi ligou para mim perguntando se eu poderia dar um pulo no futebol. O Grêmio tinha contratado um ponta-esquerdo chamado Isaías, do Maringá. E o ponta-direita do Maringá era um tal de Paulo César. Então fizeram uma reunião no departamento de futebol e iam me pedir que contratasse o Paulo César. Me falaram que já haviam entrado em contato com o jogador. Tchê, mas o Maringá era o campeão do Brasil? Pegamos o ponta-esquerda e agora queríamos o ponta-direita? Disse que não tinha dinheiro para contratar. ‘Mas precisamos de mais um ponta-direita, só temos o Tarcísio’, me alegavam. Peguem o Renato, eu disse: ‘É forte, é guri, quer crescer’. Aí me contaram que estavam fazendo um outro negócio com o Renato, entregando ele para o Operário do Mato Grosso e trazendo de lá o Jorge Leandro. ‘Estavam fazendo, não estão mais’, avisei. Não abria mão do Renato. O que contrariou profundamente o (técnico) Ênio Andrade, que não gostava do Renato. Ele deixou o Renato na reserva todo o ano, só jogou a última partida do Campeonato Brasileiro porque o Tarcísio levantou mal, teve uma noite muito ruim.”

O MELHOR TÉCNICO

“Seria injusto se não levasse em consideração o Felipão como um dos melhores técnicos com que já trabalhei. O Telê (Santana) foi um excelente treinador, era um teórico muito bom. O Ênio Andrade foi muito bom.”

MELHOR TIME GAÚCHO

“Olha, sou um cara marcado, neurotizado pela equipe do Internacional dos anos 1970. Era uma máquina. Em 1975, o Hélio Dourado assumiu como presidente do Grêmio e me convidou para ser vice de futebol. O Dourado era um cara extraordinário neste aspecto. Ele acreditava nas coisas, era entusiasmado. Me disse: ‘Temos dois anos para retomar o título do Gauchão e cinco para ser campeão do Brasil. E vamos ser’. Ele abraçava de uma maneira a causa, um homem correto, sério. Bem, aquele time do Internacional dos anos 1970, ali em 1975 e 1976 era imbatível. Eu só comparo com o Grêmio de 1983 com o Paulo César Caju, o Mário Sérgio e o Renato. Foram os dois melhores times que vi jogar. Mas o Inter daqueles anos era imbatível. Perdemos para o Internacional pelo Campeonato Brasileiro por 3 a 1 uma vez, um jogo em que saímos na frente. Eu estava no banco e até hoje ouço a voz daquele cara. O Figueroa colocou a bola embaixo do braço e disse: ‘Agora é conosco’. Não deu outra, foi 3 a 1. Era um time que jogava demais, o Carpegiani jogava demais, o Falcão era incrível.”



A MONTAGEM DO GRÊMIO DE 1995

“O Danrlei vinha da base. O Arce foi um telefonema espontâneo e desinteressado do Valdir Espinosa, que tomou a iniciativa de me indicar o Arce, que jogava lá no Paraguai. Rivarola eu fui comprar por indicação do Felipão. O Adílson voltou do Japão e estava com problemas de lesão, já tinha passado por cirurgias. Roger também estava na base. Roger, na verdade, foi escolhido pelo Felipão que viu ele treinando em um grupo escolar. O Dinho foi uma destas coisas do futebol. Em um domingo, estava veraneando em Torres e recebi um telefonema do então presidente do Santos, que me contou que havia esgotado as tratativas com um jogador e se havia interesse da nossa parte nele, que me vendia por R$ 300 mil. Eles tinham feito uma operação e precisavam de R$ 300 mil. Tá bem, eu compro. Comprei e aí que telefonei para o Felipão: ‘Temos centromédio. Contratei o Dinho, que era do São Paulo, do Santos’. Ele então respondeu: ‘Me serve’. Isso foi num domingo. Na quarta-feira, o Grêmio ia jogar em Belém do Pará e fui junto. Aí quando fomos treinar, estava terminando o treino do Remo. O Felipão então chegou para mim e disse: ‘Presidente, o senhor não quer dizer para o Verardi ver se este rapaz, o Goiano, não quer ir lá para o Grêmio? Este me serve, eu fico com a meia cancha da Libertadores do São Paulo, me serve’. Aí avisei o Verardi para já colocar uma passagem à disposição dele. Há coisas que acontecem no futebol que não têm explicação. E bem… Jardel. Vamos ao Jardel. O Felipe não estava bem no Grêmio e achava que iam colocar ele na rua. Então queria falar comigo, chamei então para almoçar comigo. Almoçamos e ele me pediu para ligar para o Eurico Miranda porque o Vasco estava emprestando um centroavante que interessava ele, o Jardel. O Vasco estava emprestando ele parece que para o XV de Piracicaba. Peguei e liguei para o Eurico: ‘Tu tens um jogador aí que me interessa. Não faz negócio ainda, espera um pouco que vou definir, mas quero esse jogador’. Ele me perguntou quem era e quando disse que era o Jardel ele só falou: ‘Leva esta m… Ontem, quando anunciaram o nome dele no banco de reservas já foi vaiado’. E veio assim o Jardel. O Paulo Nunes veio na transação do zagueiro Agnaldo. Fui fazer negócio lá no Flamengo e eles tinham uma lista com cinco jogadores. Na hora que estava saindo no pátio, o Paulo Angioni me cumprimentou e me disse para levar o Paulo Nunes e o centroavante Magno. E vieram os dois. Para ver como acontecem essas coisas.”

IMPASSE NO JAPÃO

“Nós saímos com o Grêmio aqui do Brasil para jogar com o Ajax com as passagens emitidas pela Confederação Sul-Americana de Futebol sem que eu ainda tivesse assinado o contrato. Aí três dias antes do jogo, fui convidado a participar de um jantar com os executivos da Toyota e levei a Ivone (esposa da Koff) comigo. Fomos a um restaurante finíssimo em que o balcão era uma chapa de metal e fritava o bife ali mesmo. Um ambiente fino, uns rapazes educadíssimos. Logo depois que se iniciou o almoço, eu disse: ‘Olha, vou esclarecer uma coisa para vocês. Se o Grêmio não receber a cota que vocês acertaram com o Ajax, eu não assino o contrato. Se isso é uma reunião para eu assinar o contrato, não vou assinar sem receber a mesma cota’. Começaram com não sei o que, e eu aí disse que não ia entrar em campo. ‘Ah, mas o senhor já está aqui’, me disseram. ‘Não interessa, o Grêmio volta para Porto Alegre, não entra em campo’, respondi. E a Ivone me cutucava por baixo da mesa, preocupada porque eu já estava sendo um pouco áspero com os caras, eram uns guris. Tinha dado um tapa na mesa dizendo que íamos voltar. Ficou nisso, mudaram de assunto, aí levantei para ir embora e então um deles se levantou e perguntou: ‘Como é que ficamos, presidente?’. ‘Ficamos com a cota do Ajax, senão não entramos em campo. É bom vocês verem isso aí’, disse. O Ajax já havia assinado o contrato, nós ainda não. Aí, dois dias antes do jogo, tem o evento de lançamento da Copa Toyota lá. Estava o presidente do Ajax. Eu me perguntava o que ele tinha que nós não para ganharem mais, além de troca de gentilezas, de presentes. Aí eu saio da sala e vem o Nicolás Leoz (presidente da Conmebol) e o Ricardo Teixeira (presidente da CBF) juntos, os dois. O Leoz me segura pela manga do casaco e diz assim: ‘A cota é a do Ajax e a Sul-Americana tem mais 10%’. Falei que o Grêmio que queria receber esse dinheiro. E disse que não ia entrar em campo. O Teixeira ainda tentou: ‘Não faça isso’. Era nossa convicção, não íamos entrar em campo, ia ser o maior fiasco do mundo. No final das contas, eles aumentaram e nos pagaram. E essa diferença serviu para manter o Felipão para o outro ano. A cota que eles queriam pagar ao Grêmio era de 370 mil dólares e foi de 550 mil dólares. Eu havia descoberto essa diferença porque havia falado com o São Paulo, que havia sido bicampeão mundial lá e sempre recebeu um toco de cota.”

O JOGO DA VIDA

“O jogo da minha vida foi o jogo que não ganhamos (Grêmio x Ajax, pelo Mundial de Clubes, em 1995). O Grêmio fez uma preparação adequada e correta para enfrentar uma equipe que estava há dois anos ganhando de todo mundo na Europa, que era o Ajax. Era uma equipe incrível, era tudo craque. Eu fui embalado pelo Grêmio ter conquistado em 1983, então estava pela segunda vez disputando uma final de Mundial. A equipe do Ajax estava invicta há não sei quantos jogos. Era um baita de um time. Começamos o jogo e tu tinha a sensação de que não tinha time para ganhar do Ajax. Com uns 20 e poucos minutos de jogo perdemos o nosso zagueiro, o Rivarola, expulso pelo telão. E o Grêmio jogou melhor todo o jogo. Foi uma decepção violenta para mim perder nos pênaltis. O Arce colocava com o pé a bola em um lugar que tu não conseguia colocar com a mão, era uma coisa incrível o que ele fazia. E o Dinho… Uma vez fui jogar em Recife e um dirigente me comentou: ‘O Dinho foi o maior jogador de futebol que Pernambuco já produziu’. Tivemos uma chance aos 40 minutos, com o Jardel, que era o tipo de gol que ele não errava nunca.”

Realmente, não estava acertada a premiação. Na verdade, havia sido fixada no início da Libertadores, mas depois não sofreu correção”

PREMIAÇÃO EM 1995 NÃO HAVIA SIDO ACERTADA

“Realmente, não estava acertada a premiação (antes do jogo com o Ajax, em 1995). Na verdade, havia sido fixada no início da Libertadores, mas depois não sofreu correção. Mas aquela da Libertadores de 1984 foi mais flagrante. O De León (zagueiro do Grêmio) telefonou para mim depois de um jogo, quando o Grêmio eliminou o Flamengo, em São Paulo, e me disse: ‘O ambiente aqui está muito ruim, apesar da classificação’. Explicou que não tinham ainda a gratificação assegurada e nem o local dos jogos definidos.”



DIFERENÇA PARA A EUROPA

“Este processo que aconteceu no Brasil e vai continuar acontecendo é que africanizaram o futebol brasileiro. Hoje se perde jogador com 23, 24 anos. Os clubes não têm mais interesse em jogadores acima de 23, 24 anos. Vou contar um episódio. Poucos meses depois que assumi o Grêmio nessa última passagem, recebi um convite. O olheiro do Manchester City estava na cidade e queria ser recebido por mim. Fomos almoçar. Era um cara argentino, começou com aquela enrolação, não chegava no assunto. Eu já estava louco para ir embora, então perguntei no que podia ajudar ele. Me mostrou então no telefone a fotografia do (atacante) Everton. ‘Quero este jogador’. Olhei e não reconheci, então não titubeei e disse ‘Não, esse não’.”

A OPÇÃO POR ROMILDO

“O Romildo Bolzan é o seguinte. O poder político no Grêmio estava fracionado em grupos e o Romildo fazia parte de um grupo ligado ao Hélio Dourado? Aí convidei o Romildo para jantar comigo uma noite. Ele não tinha atuação lá dentro ainda. Perguntei se poderia cogitar o nome dele para uma vice-presidência. Me respondeu que sim, que teria muito orgulho e realmente, com o tempo, houve integração com o grupo do Hélio Dourado na nossa campanha, foi conosco para o Interior. E o Romildo coloquei numa posição no Conselho de Administração. E ele mostrou muita habilidade. Ele tem uma habilidade política muito grande, é alguém muito hábil. E foi um companheiro muito leal. Nos episódios da OAS, que dá para escrever um livro só disso, ele esteve sempre solidário, sempre presente. No fim daquele ano, em 2014, mais ou menos lá por setembro ou outubro, eu estava exausto, sentindo os efeitos da briga com a OAS, era um desgaste físico muito grande, havia inclusive consultado um médico que me indicou parar. Então resolvi fazer uma reunião de diretoria com o Conselho de Administração para escolhermos o candidato. Até então o único que havia admitido ser candidato era o Renato Moreira. Fiz a reunião. Eu havia passado por uma experiência muito negativa na eleição do Conselho Deliberativo, quando membros da minha diretoria apoiaram chapas da oposição. Então coloquei as cartas na mesa. Vamos fazer uma reunião aqui e escolher um candidato entre vocês. Com um compromisso: o que for escolhido, os outros todos fecham junto, senão entreguem o cargo agora. Aí concordaram. Comecei dizendo que o Renato Moreira havia me procurado explicando que poderia ser candidato, que não havia mais empecilhos profissionais, caso essa a escolha. Então começamos a escolher, perguntei ao Nestor Hein quem era o candidato dele. Romildo Bolzan. Anotei. O próximo, (Adalberto) Preis, quem era o candidato? Romildo Bolzan. O próximo foi o Odorico. Romildo Bolzan. O (Marcos) Herrmann não estava presente, o Romildo votou nele e disse que aceitava. Disse então que ele teria que cumprir duas condições. A primeira era se desligar do seu partido político, porque sou contra participação de detentor de cargo político no Grêmio. A segunda era para ele passar no médico a cada 15 dias porque ia ter um infarto. Ele me disse então que se sacrificaria, que queria muito ser presidente do Grêmio.”

CANDIDATURA DE ROMILDO

“Não ficaria surpreso se ele saísse do Grêmio e fosse candidato a algum cargo político porque ele é um ente político. Ele tem muita habilidade política. É inteligente, é competente, é capaz. Houve um pedido de emenda ao estatuto do Grêmio criando uma regra que dizia que candidato detentor de cargo eletivo ou candidato a cargo eletivo estaria impedido enquanto isso ocorresse de ser presidente do Grêmio. Não passou no Conselho, para surpresa geral. Então, se o Romildo quiser, ele pode pedir licença por 30 ou 60 dias e concorrer”.

CARREIRA POLÍTICA

“Ali por volta de 1995, 1996 insistiram comigo para concorrer a um cargo político. Não quis. Não tenho jeito para isso aí, não. Inclusive eu seria um candidato de oposição ao (Raul) Pont, que foi candidato a prefeito. Eu dizia: ‘Eu voto nele, como eu vou ser candidato de oposição?’”

HÉLIO DOURADO

“Eu me dava muito bem com o Dourado, muito embora tivesse uma divergência no processo eleitoral de 1982, depois que ele foi campeão brasileiro, quando me lancei como candidato contra o candidato dele, que era o Rafael Bandeira. Tivemos algumas diferenças políticas neste sentido, mas nunca o suficiente para afetar o nosso relacionamento. Sempre tive muito respeito por ele. Tinha mais do que respeito, tinha muita admiração por ele. O Dourado, na galeria de pessoas especiais que eu conheci nestes 80 e tantos anos, ele tem um lugar de destaque. Ele conseguia conciliar a emocionalidade, era um homem tremendamente emotivo, com uma racionalidade e uma coragem para decidir incrível. Ele fez um convite para eu assumir uma vice presidência de futebol nos anos mais difíceis, imagina o Internacional em 1976. E, na oportunidade, me disse: ‘Fábio, sei que tu tens compromisso, mas pega comigo agora. Porque em dois anos eu vou ser campeão gaúcho e vou ser campeão brasileiro’. Ele tinha uma convicção incrível. Tanto é que perdemos o Campeonato Gaúcho para aquele time do Inter em 1976 e eu mantive o Telê Santana. Larguei a vice presidência de futebol, pedi para o (Nelson) Omedo assumir, falei com o Dourado, ele aceitou. Conversei com o Olmedo: ‘Vou te passar o futebol desde que tu mantenhas o Telê’.”

PAULO ODONE

“Nunca foi uma relação conflituosa. Fomos amigos. Ele deve ter mágoas comigo por causa das brigas com a OAS, não é? Mas eu em nenhum momento coloquei em nenhum momento dúvida a seriedade dos negócios. Eu só acho que talvez ele tenha feito um mau negócio.”

DE QUEM É A ARENA

(Referindo-se aos executivos da OAS em uma reunião realizada em 2014) “Eles tinham que me exibir o contrato, a liberação da penhora que tem sobre a Arena. Eu a do Olímpico, e eles a da Arena. Enquanto eles não deram a da Arena, não dei a do Olímpico. Era a única garantia que eu tinha. Porque na realidade, esse dinheiro aí da OAS foi captado junto a uma empresa, Karagounis, que emprestou para a OAS R$ 300 milhões, pegou o Olímpico e uma parte da Arena. Então, nas entrevistas que eu dei na época dizendo que a Arena não era do Grêmio, é porque não era mesmo. E não é até hoje, o Grêmio não tem a administração daquilo lá. Está botando dinheiro na OAS. Porque quanto mais sócios tu tem, mais caro sai, tu paga para a OAS.”

A Arena até hoje não é do Grêmio. O clube não tem a administração daquilo lá”



ONDE ESBARRA A COMPRA DA ARENA

“A compra da gestão da Arena esbarra em duas coisas. Tu não podes comprar a Arena se ela está dada em garantia, ela está penhorada para os bancos credores, há um direito real sobre ela, tá? E tu tens que liberar para transferir, tá? Eles lá pelas tantas me diziam: ‘Está indo aí o cara vocês assinarem o papel’. Não assino até venha isso aí. Nunca veio. Não tinha como assumir o risco de fazer negócio com isso aí penhorado. Quando estávamos ultimando o negócio, ia ser uma troca. Aí explodiu a Lava Jato e eles (OAS) não tinha dinheiro para mais nada. Lembrem de uma coisa que eu vou dizer para vocês. Eu lutei até o fim para colocar uma cláusula para que houvesse contingenciamento de receita para as obras de conservação do estádio. O Grêmio não tem. O estádio vai sofrer desgaste evidentemente. Agora, quem teria que fazer isso é a OAS, mas não vai fazer. As obras do entorno, eram dela com a Prefeitura, não vai fazer.”

ARENA E OLÍMPICO

“Hoje acho melhor que o Grêmio tivesse ficado no Olímpico. Ainda que o Grêmio tivesse o prejuízo de disputar dois anos sem um estádio, como o Inter pagou este preço.”

LEGADO DO CLUBE DOS 13

“O sistema de disputa do Campeonato Brasileiro, de 20 clubes, começou com o Clube dos 13, que exigiu 23 clubes em uma assembleia geral da CBF, posição que adotamos. Acesso e descenso, Séries A, B e C, foi o Clube dos 13. Isso não tinha. Tinha 98 clubes disputando o Campeonato Brasileiro na época, tá? O Clube dos 13 foi a primeira voz a se insurgir contra a exploração dos direitos de imagem por parte da CBF, que fazia os contratos de televisão. E passou um ano lutando para que fosse inserido, o que de fato aconteceu, na Lei Pelé que o direito de imagem fosse dos clubes e não a entidade maior, que no caso era a CBF. Bem, estas talvez tenham sido as mais gritantes conquistas do Clube dos 13. A verba de televisão começou com R$ 10 milhões e hoje está em R$ 1 bilhão. Eu tive uma grande virtude que foi o seguinte, não sei como com esse meu espírito explosivo, eu tinha temperamento para aguentar as reuniões. Estivemos com os estatutos registrados de formação da Liga Brasileira de Futebol. Registrados. O Ricardo Teixeira chamou os clubes na CBF e eles retiraram as assinaturas, me deixaram sem nada, só ficou o Eurico (Miranda, dirigente do Vasco) comigo.”

DIREITOS DE IMAGEM

“Quando eu assumi o Clube dos 13, quem explorava os direitos de imagem era a CBF com a Traffic, com o (empresário) J.Hawilla. Aí quando conseguimos no Congresso a aprovação de um novo texto que dava aos clubes o direito de exploração da imagem, o Ricardo Teixeira, que nunca falou destes assuntos comigo, mandou o então tio dele, que era vice-presidente da CBF, telefonar para mim dizendo que a CBF tinha uma taxa que cobrava de 10% sobre os contratos de televisão. Eu disse que não iria ter mais. ‘Mas como nós vamos ficar’?, ele questionou. ‘Peça por escrito’, respondi. Nunca pediu, nem nunca mais veio o assunto.”

DIVISÃO DE COTAS

“No processo de distribuição, eu sofri um desgaste muito grande. Quando eu saí, que extinguiram o Clube dos 13, neste processo de distribuição, eu estava começando a valorizar o desempenho técnico. Não interessava se fosse o Avaí que saísse campeão brasileiro. Eu ia pagar a cota igual para todo mundo e o resto seria no desempenho técnico, o que não agradava à Globo, porque ela estava introduzindo o pay-per-view e a telefonia e tinha clubes com apelo como Flamengo e Corinthians. Estamos em plena competição do Campeonato Brasileiro e a manchete da Globo todo dia e é o Flamengo. ‘Flamengo em crise’. ‘Flamengo tem novo treinador’. Não tenho certeza, mas o Flamengo deve ganhar R$ 150 milhões de cotas de TV. O Grêmio recebe R$ 60 milhões.” 

CBF

“Por uma questão de justiça, preciso dizer que a CBF administra muito bem o futebol. Tu vê quantos jogos tem nos domingos, todas as divisões. O árbitro está lána hora, os bandeirinhas estão lá na hora, tem exame antidoping realizado, o jogo sai. Só de vez em quando acontece alguma coisa. É preciso ter uma estrutura muito grande. Para o Clube dos 13 administrar todo o futebol, teria que terceirizar.”

COPA JOÃO HAVELANGE

“No ano 2000, recebemos uma bomba, o Torneio João Havelange. Tivemos que botar todos os times das Séries A, B e C porque não tinha emprego para ninguém, as televisões estavam reclamando, a CBF estava impedida pela Fifa de organizar competições (após perder uma batalha jna Justiça Comum para o Gama, que não aceitou o rebaixamento no ano anterior), estava suspensa. Então a única maneira de passar a Fifa para trás foi esse torneio. E o pior é que depois de terminado, com o Vasco campeão e o Fluminense, que havia sido rebaixado antes, ter voltado, isso foi oficializado. Não era para oficializar, aquilo era uma competição de emergência, que não daria acesso.”

DELCIR SONDA

“Deixa eu contar um episódio. Vocês lembram que o Grêmio tinha um campo de treino no Olímpico, não é? Uma tarde, estava na sala da presidência e desci para ver o treino. Atravessei o campo, eles estavam batendo bola, falei para o Felipão, que me disse: ‘Presidente, acho que estou ficando louco. Eu vou lançar um guri com 16 anos e vai jogar comigo”. Perguntei quem era: “O Lincoln”. Treinou e foi uma beleza. Aí mandei verificar a situação dele e não tinha contrato profissional conosco. Sabe quem era o empresário dele? O (Delcir) Sonda. Chamei então o Felipão na minha sala e disse: “Se tu botar esse guri, eu estou morto. Porque ele não tem contrato conosco, ele vai embora. É do Sonda. Aí telefonei para o Sonda, que conhecia de Erechim, foi colega de aula do meu irmão. ‘Ô Sonda, eu quero dar vitrine para o Lincoln, mas tem preço a vitrine que estou dando. Sei que já deste um apartamento para a mãe dele, um telefone para ele, mas o Grêmio tem que ficar com um percentual do passe dele, é quem está exibindo, é vitrine’. Ele me disse que depois conversávamos então. Eu disse que não, pedi que viesse durante a semana, senão o guri ia ficar o resto da vida fora. E ele veio, foi lá no Olímpico. Meus colegas de diretoria me diziam: ‘Tu és louco? Vai fazer negócio com o Sonda, que é colorado?’. Eu disse que ele iria honrar o compromisso comigo. E honrou. Levou o guri e a família e assinou o contrato com o Grêmio.”

EURICO MIRANDA

“Em 1983, houve um amistoso no Olimpico com o Vasco, uma partida noturna. O Vasco jogou com o Mazaropi e ele pegou tudo. No dia seguinte, falei com o Eurico Miranda, expliquei isso e aquilo sobre o goleiro. Ele me perguntou se estávamos precisando de um goleiro. Perguntou se tínhamos dinheiro. Falei que não. ‘Tudo bem, leva emprestado, não tem problema, pode ficar com ele aí’. Assim que veio o Mazaropi para cá. Quando ele me mandou o Jardel, anos mais tarde, aconteceu o seguinte. Ele veio sem passe fixado no papel. O Eurico disse para mim que iria honrar na palavra, que era um milhão de dólares, que se quiséssemos comprar, poderia ser a prestação. Veio o Jardel. Aí mais tarde, depois dele estourar, teve um grupo português que foi no Rio de Janeiro a procura do Vasco para comprar o Jardel e ofereceram 1,6 milhão de dólares. E o nosso contrato com o Jardel estava para vencer e não tínhamos o dinheiro. Aí me fiz de bobo com o Eurico: ‘Quanto é mesmo o passe do Jardel?’ Ele me mandou para tudo quanto é lugar, que já tinha me dito que era um milhão de dólares. ‘Cumpro a minha palavra até 15 de agosto, é um milhão. Se não tiver, bota 500 mil no teu prazo, tu acha que não vou cumprir com a minha palavra?’ Aí recorri ao Jorge Gerdau para me arrumar um dinheiro emprestado e também ao Nelcir Zaffari. Aí paguei os 500 mil para o Eurico, os outros 500 ele telefonava e eu dizia que não estava (risos). Um dia ele me pegou: ‘Pô, está se escondendo de mim? Quanto tempo tu queres para pagar? Quero te ajudar’. E cumpriu a palavra dele.

Não dormi uma semana imaginando como seria jogar contra o Grêmio. Foi um fiasco. Não toque na bola.

FUTEBOL NA INFÂNCIA

“Eu tive uma infância em que vivi com meus avós. O meu avô era dono de um campo de futebol ali em Garibaldi. E jogava eu no time, porque né, o time era do meu avô, senão eu tirava a bola e ia embora. E marcaram um jogo, entre o Pedregulho, não lembro se já era Guarani ou se ainda era Pedregulho, mas marcaram um jogo contra, à época os juvenis do Grêmio, que seriam juniores hoje. Olha, eu não dormi uma semana antes só imaginando como seria jogar contra o Grêmio. Foi um fiasco. Não toquei na bola de tão nervoso. Eu era meia-esquerda. Só chutava com a direita, mas era meia-esquerda. E enfim, o time de Garibaldi tomou 6 a 1, 7 a 1. Até hoje eu não me esqueço.”

BAIXADA

“A primeira lembrança que eu tenho do Grêmio é uma partida contra o Independiente, na Baixada. Centroavante do Grêmio era o Luiz Carvalho, o Independiente estava fazendo seis partidas no Brasil e vinha invicto. E o Grêmio ganhou aquela partida, uma virada histórica por 3 a 2, dois gols do Luiz Carvalho. Eu estava em uma arquibancada de madeira, era guri, tinha ido com o meu tio, que era colorado. Eu devia ter 10, 12 anos no máximo.

LIBERTADORES 2017

“A Libertadores não está difícil de ganhar. A Libertadores vai lá no final dar Grêmio x River, é o meu palpite. O Palmeiras gastou R$ 80, 90 milhões e para ganhar um jogo ainda se socorre do Zé Roberto.” (A entrevista foi realizada na véspera do jogo do Palmeiras, que acabou de fato eliminado da Libertadores). (Correio do Povo)



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